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Digitalizado por Mrcia Gomes

As Estaes do Amor
(Callaghan's Bride)
Diana Palmer


Srie Homens do Texas

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Captulo 1

Movimentando-se pela cozinha, em meio a seus afazeres domsticos, Tess Brady Sentia o roar macio do gato da casa nos tornozelos. Sorriu e resolveu colocar um pouco mais de rao na vasilha, j vazia, do bichano. Era a terceira vez que o alimentava, naquela manh, Tess pensou acariciando-o. Quanto tempo se passara desde que recolhera o pobre animal, faminto e assustado, no ptio dos fundos, perto das latas de lixo? 
     Dois meses  ela concluiu, em voz alta.  E ele ainda no esqueceu os horrores da fome.
    Tess Brady compreendia muito bem os animais, graas a uma sensibilidade inata e a uma prtica desenvolvida  ao longo dos anos. - 
    Desde menina, recolhia animais feridos  ou abandonados, sem nunca pensar no trabalho que teria, ou no destino que lhes daria, depois de aliment-los e cur-los. Seguia aquele impulso sem se questionar  acabava resolvendo os problemas que dele decorriam. 
    Filha nica de um caubi, famoso por ter conquistado o bi-campeonato nacional na modalidade lao, Tess passara a infncia e adolescncia em meio a rodeios, em companhia dos pees, num estilo de vida livre e aventureiro. 
    Sua me abandonara a famlia, antes que Tess completasse trs anos de idade, deixando ao pai a responsabilidade de cri-la. Assim, fora natural para Tess assumir o papel feminino da casa, logo que sua idade, estatura e habilidade permitiram. Agora que Ray Brady deixara de existir e que ela estava realmente por sua conta no mundo, o velho hbito de cuidar dos animais se tornara quase mania. Uma forma de sentir-se menos s.. 
    Uma onda de melancolia cobriu os olhos verdes de Tess, que de sbito lembrou-se da morte do pai, levado deste mundo por um ataque cardaco fulminante. A tragdia acontecera num dia de sol causticante, no curral que podia ser avistado da janela da cozinha, onde Tess se encontrava. 
Ray Brady estivera a servio da famlia Hart nos ltimos cinco anos de sua existncia... 
    O gato, debruado sobre a tigela de rao, miou satisfeito, interrompendo os tristes pensamentos de Tess. A incluso do felino no dia-a-dia da casa causara resmungos de desaprovao em dois dos trs irmos Hart que ali viviam, O nico a aprovar a adoo do bichano fora Callaghan, o sisudo e temido chefe do cl. E essa atitude deixara Tess a um s tempo confusa e surpresa. 
     Ela estava a. servio dos Hart, desde a morte do pai, ocupando a funo de governanta e cozinheira da famlia, apesar de sua pouca idade. 
    A casa, situada numa grande fazenda, no condado de Jacobsville, era sede com dezenas de propriedades rurais espalhadas pelo Texas e Estados vizinhos. 
A famlia Hart era assim constituda, em ordem cronolgica: Simon, Callaghan, Corrigan, Leopold e Reynard. 
    Simon era advogado, morava em San Antnio e em breve desposaria Tara Seymour,  sua noiva. Corrigan casara-se havia um ano e meio...Morava com sua esposa, Dorie, e um belo beb de poucas semanas, na mesma fazenda-sede dos Hart, numa casa convenientemente distante do casaro principal. Os outros trs irmos habitavam a velha manso rural, mantida por Tess numa organizao a toda prova, apesar de algumas dificuldades. Pois nem tudo era um mar de rosas, no trabalho dirio de Tess Brady... 
    Cozinhar para os trs Hart, bem como manter a casa limpa, eram as tarefas mais simples. Difcil era entender a personalidade de cada um deles, as variaes de humor, as exploses emocionais assustadoras que por vezes os acometia. Mas era Callaghan Hart quem tinha o poder de atemoriz-la. Ex-capito dos Boinas Verdes, testado em conflitos no Oriente mdio, o chefe do cl Hart quase nunca sorria. E Tess jamais o vira rir. Callaghan era seco, direto e impositivo. Tess s vezes tinha a ntida impresso de que ele a observava atentamente, como se  espera de uma falha qualquer que lhe desse motivos para despedi-la. 
     Sacudindo a cabea, fazendo danar os cabelos ruivos e cacheados que lhe chegavam  altura dos ombros, Tess abriu a porta da cozinha e saiu para o ptio iluminado de sol Com os olhos fechados ergueu o rosto, expondo-se  fora e calor dos raios benficos. Era agradvel ficar assim, os ouvidos atentos a todos os sons, sentindo o vento a refrescar-lhe o corpo aquecido. 
    Aos poucos, por trs das plpebras cerradas, a imagem de Callaghan formou-se na mente de Tess. Alto, moreno, cabelos negros da cor dos olhos misteriosos, herana da me espanhola... Um rosto de traos perfeitos, um corpo esguio e ao mesmo tempo musculoso, de uma agilidade felina... Decididamente Callaghan era um belo homem, embora fora dos padres convencionais, ela pensou. Mas havia algo nele que a intimidava. Os gestos precisos, a voz vibrante e direta, o olhar severo... Tudo em Callaghan parecia impor um misto de respeito e temor.! 
    Abrindo os olhos, Tess contemplou os campos em torno. 
A natureza resplandecia, em tons variados de verdes e azuis. 
A luminosidade era intensa. Tess continuava a pensar em Callaghan Hart. Extremamente reservado, ele no recebia e nem freqentava amigos. No ia a festas e s viajava a negcios. Apesar de solteiro, rico e na plenitude de seu vigor, Callaghan raramente recebia telefonemas de mulheres, em casa. Mas lia muito, especialmente obras referentes  colonizao espanhola nas Amricas. Pesquisava documentos histricos, tambm. 
    Por trs vezes, Tess o vira falando com pees latinos, num espanhol fluente e sem sotaque. 
    Tess sorriu, ao lembrar-se que nenhum dos Hart sabiam que ela, alm de montar e atirar como um verdadeiro caubi, dominava o espanhol como sua segunda lngua. 
     Aquecendo-se ao sol?  A voz de Reynard, o mais jovem dos Hart, interrompeu- lhe as divagaes. 
     Sim  Tess respondeu.  O dia est magnfico, no acha? 
     Depende do ponto de vista.  Ele aproximou-se, retirando o chapu. 
    Percebendo-lhe uma expresso preocupada no rosto, Tess  indagou: 
     Algum problema, Reynard? 
    - Sim  ele confessou, com um suspiro.  Hoje Callaghan est impossvel. E Leopold fica dando margens a discusses. Agora esto os dois l no celeiro, falando pelos cotovelos, em p de guerra. No agento situaes desse tipo. 
    - Notei que Callaghan tem andado estranho nos ltimos dias  ela comentou.  Parece apreensivo. 
     Mais estranho do que o costume, voc quer dizer.  Ele sorriu, com ironia, antes de prosseguir.  Mas sei do que se trata. Todo ano, por esta poca, acontece o mesmo. Eu estava justamente tentando dizer isso a Leopold... Mas ele s ouve o que quer. 
    - Do que est falando Reynard? 
     Da influncia de certas datas sobre Callaghan.  Diante do olhar confuso de Tess, ele explicou:  Os dias que antecedem o Natal o deixam irritado e nervoso. O mesmo ocorre com seu prprio aniversrio. H tambm dois ou trs dias durante o vero; em que ele parece ter sido atacado por mil demnios., Aps uma pausa, acrescentou:  Se quer um conselho, mantenha-se o mais longe possvel de Callaghan, nessas datas. Ele pode ser bem desagradvel, nesse estado. 
    Obrigada pelo aviso. Ficarei atenta. 
     Faa isso  Mudando de assunto, Reynard perguntou: Voc tem notcias de Corrigan e Dorie? 
     Eles no tm telefonado e, na verdade, nem eu. 
     Na ltima vez em que vieram aqui, ficamos de combinar um jantar, para conversarmos um pouco. 
    - Talvez seja melhor deixar o encontro para a ceia do Natal. Afinal, faltam poucos dias para a data. 
     Tem razo. De qualquer, forma vou ligar para eles  Reynard se afastou, caminhando em direo a casa. 
     Acabei de passar um caf  ela avisou.  Est em cima do fogo. 
Voltando-se, ele sorriu; murmurou um agradecimento e entrou na cozinha. 
    Tess permaneceu no ptio, desfrutando os raios de sol, pensando no que o mais novo dos Hart havia acabado de lhe contar. 
    Naquela manh, tivera uma pequena demonstrao do mau humor de Callaghan, que levantara-se da mesa sem terminar o caf apenas porque ela no encontrara o creme de amendoim que ele pedira. Reynard e Leopold haviam trocado um sorriso irnico e um olhar de compreenso, como se j esperassem aquela reao brusca. 
    O mais difcil era ligar o severo e enigmtico Callaghan Hart ao homem sensvel e alegre que, no se sabendo observado, brincava com o gato na varanda, sorrindo e acariciando-o. 
    Essas contradies deixavam Tess confusa e insegura. No queria sentir pena de si mesma, mas revoltava-se pela insensibilidade de Callaghan com respeito a sua situao naquela casa. Como lder da famlia, ele bem que poderia lhe dar, vez por outra, uma palavra de incentivo, ou um elogio, que sem dvida a ajudaria bastante, naquela difcil fase de  adaptao. Mas ele parecia nem notar sua existncia, Tess notava, com tristeza. S se dirigia a ela quando estritamente necessrio. E sempre daquela maneira seca e direta que a fazia estremecer de surpresa e medo, ao mesmo tempo. 
    Balanando a cabea num gesto de desnimo, Tess voltou para o interior da casa. Tudo poderia  ser to diferente, se Callaghan a tratasse com mais cordialidade. 
    Mas as pessoas so como so, e no como desejamos que sejam, ela pensou, com um profundo suspiro. 
     O Natal se aproximava, o frio era intenso. Mas o sol brilhava num cu azul-anil. 
     Parece que no haver neve suficiente, este ano  comentou a Sra. Lewis, mexendo com uma enorme colher de madeira o contedo de um tacho de cobre sobre o fogo. 
     No sei, no...  Tess aproximou-se da janela e contemplou a paisagem l fora.  Quando menos se espera, o tempo muda e a neve torna a cair. 
    - Tomara que voc esteja certa. Onde j se viu um Natal assim?  A sra. Lewis apontou para fora, com um gesto de cabea, enquanto assumia uma expresso de desalento. 
 Est tudo to sem graa... 
    Tess sorriu dos resmungos da velha ajudante, responsvel pelos trabalhos mais duros da casa. 
     Fique tranqila. Teremos um Natal lindo, como sempre, com direito a neve e tudo o mais. 
     Talvez  a sra. Lewis comentou, nada convencida. 
    O aroma tentador de doce de leite espalhava-se pela cozinha. O trabalho era intenso, naqueles dias que antecediam o Natal. Panetones, bolos, bombons, balas de caf e chocolate, pudins, biscoitos de nata. Uma variedade enorme de doces estava sendo preparada na ampla cozinha da manso rural dos Hart, no distrito de Jacobsville. 
     Estou aborrecida por deix-la sozinha, com todo esse 
trabalho disse a velha senhora. -  Mas o Natal  sagrado, em minha famlia. Meu filho mais novo vir de Dallas, com a famlia, para a ceia. E no seria justo se eu... 
    - Ora, no se preocupe, querida  Tess a interrompeu. J fizemos dos doces e confeitos. Os assados e cozidos esto no freezer, temperados e prontos para serem levados ao forno. Callaghan cuidar pessoalmente das bebidas como fez questo de avisar. 
      ele  que sempre escolhe os vinhos. 
     Deu para notar. Alis ele anunciou esse fato com sua costumeira... delicadeza  O modo como Tess pronunciou a ultima palavra da frase deixava bem claro sua amarga ironia. 
    A sra. Lewis deteve o movimento da colher e olhou atentamente para Tess, antes de indagar: 
     Voc se ressente com os modos de Callaghan Hart, no ? 
     Venho tentando me acostumar. Digo a mim mesma que no se trata de nada pessoal, que ele age desse jeito com todo mundo... Mas  difcil. 
     Sei perfeitamente do que voc est falando querida 
 a sra. Lewis declarou, pensativa.  Mas as coisas nem sempre foram assim. Callaghan era um menino dcil... Um adolescente encantador. 
     E o que aconteceu, para faz-lo mudar tanto? 
    Abandonando a colher no interior do tacho por um momento, a velha senhora abriu os braos, num gesto vago:. 
     Como vou saber? Imagino que tenha sido a guerra... Callaghan voltou totalmente mudado. Alguma coisa parecia ter se quebrado dentro dele. 
    Ambas ficaram em silencio por um longo momento, com as mos geis no trabalho minucioso, as mentes divagando em torno do assunto. Por fim a velha senhora suspirou profundamente e voltou a falar do Natal. 
     Voc vai ficar sobrecarregada, querida. Ter de servir a ceia sozinha. 
     Ora, isso no ser problema  Tess afirmou.  Gosto de festas, sabe? Alm do mais, todos ajudaro, de uma maneira ou de outra. J lhe disse para no se preocupar com isso. 
     Est bem.  A sra. Lewis sorriu, provou o doce e declarou: Ficou no ponto exato. Agora  s esperar esfriar. e colocar nas formas. 
     Deixe isso por minha conta  Tesa prontificou-se. 
     Nem pensar querida. Voc ter trabalho de sobra, daqui a alguns dias. No quero sobrecarreg-la ainda mais.
 
     A mesa da sala de jantar estava coberta com uma toalha de linho branca. Sobre ela, a loua alem, pintada com motivos florais. Copos e taas de cristal lavrado, talheres de prata muito antigos, vindos da Espanha no comeo de sculo, estavam dispostos ao lado dos pratos. Havia flores multicoloridas, arranjadas em jarras azuis, muito finas. O velho candelabro de cristal, que pendia do centro da sala e era utilizado apenas em grandes ocasies, estava aceso. Provocava um efeito impressionante, com cintilaes e reflexos inesperados. 
    A conversa se mantinha num tom mdio e ameno. A famlia Hart estava reunida. 
    Como Tess j havia previsto, todos se empenhavam em auxili-la. 
     Dorie, apesar de atenta aos cuidados com o beb, fazia questo de ajud-la a servir. 
    Leopold e Corrigan no deixavam os copos se esvaziarem, serviam refrescos e vinho a todos. 
    A cabeceira da mesa, Callaghan, Simon e Reynard discutiam tcnicas de plantio e, volta e meia, estendiam o assunto para os demais. 
    Os pratos quentes foram muito elogiados e os doces no ficaram atrs. Chegou ento o momento da entrega dos presentes e Tess foi contemplada com um casaco de couro espetacular, que a deixou sem flego. 
     E maravilhoso... Um sonho!  exclamou, comovida, apertando-o de encontro ao corpo. 
 Presente dos rapazes - disse Dorie alegremente.  Este  meu...  E entregou-lhe um pequeno embrulho. 
    Emocionada, Tess soltou o lao da fita que envolvia um pequeno estojo de madeira. Dentro, havia um frasco mbar, com uma essncia francesa de alto valor. 
     Oh, Dorie! Voc no devia... 
     Deixe de bobagem e experimente. Na sua idade, eu usava sempre. Era um sucesso. 
    Tmida, ela abriu o frasco e aspirou a fragrncia extica.  
     Fantstico  murmurou, deliciada. E anunciou, enquanto fechava a embalagem.  Eu tambm tenho um presente para voc. 
     Verdade? 
     Sim:.  Um tanto embaraada, Tess afirmou:  Eu mesma fiz, nas horas de lazer. E deu a Dorie um grande embrulho de papel prateado. 
    Curiosa, Dorie o abriu. Uma exclamao brotou-lhe dos lbios, enquanto seus olhos tornavam-se midos e brilhantes. 
      Um enxoval completo para o beb! Que lindo! Veja, Corrigan. Ela estendeu o embrulho aberto em direo ao marido. 
    A luz do candelabro reverberava sobre delicados bordados que enfeitavam as minsculas peas de roupa. 
    Intimidada por ter se tomado, de repente, o centro das atenes, Tess pediu licena e foi para o seu quarto, levando os presentes que tinha ganho. Pouco depois, de volta a sala, comeou a recolher os pratos e talheres usados na ceia, enquanto Dorie servia os licores e o caf. 
     Est nevando  disse Reynard, junto a uma janela.  Venham ver. 
    Todos acorreram, alegres. Juntos, contemplaram os flocos macios flutuando ao vento. 
     Quantas vezes, quando menina, no vi esta mesma cena!  Dorie comentou, comovida.  E, no entanto,  como se a assistisse pela primeira vez... 
    Um tanto afastada, Tess contemplou a famlia reunida, naquele momento nico, e sentiu-se inundada por uma onda de intensa solido. 
     Tenho de recolher os animais.  A voz de Callaghan vibrou no silncio que se fizera na sala.  Quem vai comigo? 
Leopold comeou a mover-se, afastando-se lentamente da janela, mas Reynard adiantou-se: 
     Eu irei. 
    Os dois saram em meio  neve, os vultos compactos se perdendo na escurido. 
     Acho que devemos partir, agora  Corrigan sugeriu a Dorie, que acabava de cobrir o beb, que dormia no carrinho.  No temos corrente nos pneus e a neve est caindo para valer. 
     Ns tambm j vamos  disse Simon, olhando carinhosamente para a noiva a quem em breve desposaria.  Tara est exausta e precisa descansar. 
    As despedidas foram ponteadas por muitos risos e abraos. Pouco depois, os dois carros partiam, deixando Tess e Leopold a ss.. 
     Bem, vou colocar esta sala em ordem e lavar a loua 
 ela disse, com naturalidade. 
     Deixe para amanh. Voc deve estar cansada. 
     De modo algum. Amanh j  hoje.  Tess apontou 
o relgio de parede, que marcava uma e meia da madrugada. 
      Assim que clarear Callaghan saltar da cama, como sempre, e o caf dever estar servido. Portanto, preciso pr 
mos  obra. 
      Ento, vou ajud-la. 
    - Que bobagem - ela protestou, sorrindo.  Farei tudo num piscar de olhos. V descansar, Leopold. 
     Estou sem sono.  Ele comeou a recolher os copos. 
     Um pouco de conversa me far bem.  De sbito, perguntou:  Quantos anos voc tem? 
     Vinte e um. Completarei vinte e dois em maro. 
     Pois voc parece bem mais jovem. Eu lhe daria uns dezenove anos, no mximo. Onde aprendeu a cozinhar to bem, Tess? 
    - Em casa. Sempre fui muito curiosa e criativa. Alm do mais, haviam os livros de receitas e as conversas com as mulheres mais velhas. Papai sempre elogiava minhas novas tentativas na arte culinria, mesmo quando os resultados eram desastrosos. 
    - Voc deve sentir muita falta dele... 
     Sim  Tess respondeu, caminhando em direo  cozinha.  Voc nem pode imaginar o quanto... 
     O que aconteceu com Ray foi to inesperado... Ele parecia absolutamente saudvel  Leopold comentou, seguindo-a e levando os copos. 
    As vezes penso que deveria ter sido mais atenta. Haviam sinais evidentes da doena, em papai. 
     E por que ele no consultou um mdico? 
    Ela riu, inclinando a cabea para trs, os olhos midos, o rosto contrado de tristeza. 
      evidente que voc no conhecia papai muito bem. Ele era um homem esclarecido e muito bem informado. Mas, em certas questes, agia com total irracionalidade 
     Sade, por exemplo.
    - Mdicos, para ser mais exata. Tinha verdadeiro horror a eles  E Tess comeou a lavar a loua. 
     As coisas simplesmente acontecem, sejam elas boas ou ms. Temos de estar prontos para receb-las e aceit-las 
    -  uma dura lio.  Tess suspirou. O que me consola  saber que meu pai viveu como quis e foi um homem extremamente interessante, carinhoso e.... feliz, a seu modo. 
    -  justamente isto que me preocupa, com relao a Callaghan. O tempo est passando e ele parece no perceber que a vida passa  Leopold murmurou, quase que para si mesmo.  Ele est l fora, com Reynard, em meio a neve, cuidando do gado, como se isto fosse a coisa mais importante do mundo. 
    Tess voltou-se, surpresa: 
     E no ? 
     Gostaria de dizer que sim. Ento, estaria tudo certo. 
Tess continuou a lavar a loua, sem nada comentar. Aquele era um momento delicado, onde um homem abria seu corao em confidncia para uma quase desconhecida, ela intuiu, sabiamente. O vinho, a ceia de Natal com suas lembranas poderosas., a neve que chegara em momento to oportuno... Todos aqueles fatores somados, trouxera  tona um Leopold exposto, revelando suas preocupaes e incertezas. 
     Callaghan era noivo quando partiu para a guerra do Golfo  ele continuou.  Como capito dos Boinas Verdes, foi ferido em combate e passou um longo tempo entre a vida e a morte, num hospital da Alemanha. Quando teve alta e, voltou para a Amrica, encontrou sua noiva casada com um de seus melhores amigos. Foi um choque tremendo e desde ento sua vida tem sido o trabalho. Todos ns, aqui em casa, pensamos que o tempo curaria a ferida emocional que Callaghan sofrera, tal corno fez com seu corpo cheio de cicatrizes, mas novamente inteiro e vivo.-  Leopold fez uma pausa.  Mas estvamos enganados... infelizmente. 
    Tess assentiu, em silncio, com um gesto de cabea. 
Leopold serviu-se de um copo de vinho e sentou-se  mesa da cozinha.  Parecia profundamente triste e s voltou a falar depois de alguns momentos: 
      por isso que compreendemos suas manias e sbitas exploses de mau humor. Mas a impotncia diante da vida arruinada de algum que amamos  uma sensao terrvel, acredite. 
     Nada  assim to definitivo, Leopold. Seu irmo tem muita vida pela frente e um dia desses acaba encontrando algum que venha substituir, em seu corao, aquele amor perdido  Tess ponderou, num tom amvel. 
     Que os anjos digam amm as suas palavras, Tess. Se voc visse como meu irmo trata as mulheres que tentam se aproximar dele, entenderia meu desnimo. Callaghan simplesmente as ignora, com uma educada neutralidade que as faz gelar. Muitas merecem esse tipo de tratamento,  claro. No passam de oportunistas procurando um bom casamento ou uma aventura. Mas outras, bastante interessantes, recebem o mesmo tratamento frio e impessoal. Ele parece no fazer distino entre as pessoas... 
     E no abre nenhuma exceo? 
     Nenhuma  Leopold repetiu, com um veemente gesto de cabea. 
     Ento o problema  srio, mesmo. Mas um dia talvez essa situao mude. Quem sabe...? 
     At l, teremos de agentar o mau humor do querido Callaghan. E quanto a voc?  ele indagou, de sbito.  No se ressente com o tratamento rspido que recebe dele? 
    Ela sorriu, antes de responder: 
     Muito mais do que deveria. Mesmo conhecendo, agora, o motivo que o leva a tratar assim as mulheres em geral, no  fcil... 
     Tenha pacincia, Tess. No fundo, Callaghan  uma tima pessoa e quer o bem de todos. 
    - No duvido. Mas continua no sendo fcil. 
     Compreendo. Mas, mudando de assunto, ou melhor, de foco... Voc tambm nunca sai, nem recebe pessoas. Ser que, tal como Callaghan, voc tem algum motivo secreto que a faz fugir da companhia masculina? 
    Aquela era uma evidente tentativa de aliviar a tenso da conversa, Tess percebeu. E por isso respondeu sorrindo: 
     Nenhum segredo e nenhum trauma. Apenas, tenho muito o que fazer nesta casa. E, quando posso, ocupo meu tempo de lazer bordando, ou lendo. Tambm adoro ouvir msica e assistir  tev. 
     Mas voc no sente falta de sair, de freqentar bailes, enfim... de namorar? 
     Sinceramente, no. 
     Sinceramente?  ele repetiu.  No acredito. 
     Mas  a pura verdade. 
    Havia muita simpatia no ar e talvez por isto Leopold arriscou um convite: 
     Que tal abrir uma exceo? 
     Como assim? 
     Saia comigo, uma noite dessas. 
     Voc quer dizer... eu e voc?  Tess perguntou perplexa. 
     Sim,  claro. Porque tanto espanto? 
     Ora, Leopold! Voc  um dos meus patres. Ser que o vinho o fez esquecer deste fato to simples? 
     Pelo que me consta, voc  livre e desimpedida para fazer o que bem entender, fora do horrio de trabalho. 
      E timo ouvir isto. Se eu um dia tiver de usar este direito, no deixarei de lembr-lo desta nossa conversa. 
    Ele sorriu, antes de insistir: 
     E ento, Tess, voc aceitar meu convite? 
     Oua, Leopold.. Supondo-se que seus irmos tenham a mesma viso liberal que voc sobre o assunto, ainda assim no poderei aceitar. 
     Por qu? 
     Pelas implicaes que o fato teria, no dia-a-dia desta casa. J h problemas demais, voc no acha? 
     Eu no fao o seu tipo  Leopold concluiu.   isso, no? 
     Voc  muito atraente e sabe disso  Tess sentenciou. 
 Ao contrrio de Callaghan, voc no se faz de rogado quando uma mulher lhe telefona, mesmo no meio da madrugada  disse, com ar maroto. 
     Voc anda me espionando, Tess Brady?  ele indagou, fingindo-se indignado, num tom que soava cmico. 
     No, Leopold Hart. Apenas, no pude evitar de ouvi-lo bradar, no telefone da sala, sua mais recente paixo por uma tal de Susy. Isso aconteceu numa madrugada, quando vim apanhar um copo de leite na geladeira. 
    Ele sorriu: 
    - Tudo bem, Tess... Voc venceu. Quer dizer que sua resposta  no? 
     Sim. 
     Sim ou no? Decida. 
    - Ora, v dormir; Leopold. E deixe-me terminar o trabalho.   
    Rindo, ele, saiu da cozinha, levando a garrafa de vinho.  Tess ficou ainda por quase uma hora arrumando tudo e  pensando no que ouvira. A imagem de Callaghan fixava-se  em sua mente, com uma nitidez quase cruel. 
    A semana que se seguiu ao Natal foi atribulada, na Fazenda Hart. Tratava-se do descarte de inverno, quando o gado no produtivo era separado dos demais e colocado  venda nos leiles de mbito nacional. Em menos de quinze dias, todas as propriedades dos Hart sofreriam o mesmo processo. Era uma operao de grande envergadura, mobilizando centenas de homens em trs Estados da nao. 
    Em meio quela incrvel agitao, parecia a Tess que somente ela no havia se esquecido que o aniversrio de Callaghan se aproximava. Ela bem sabia que Callaghan detestava festas e comemoraes, mas no aceitava a idia de deixar a data passar em branco. 
    Sem consultar ningum, Tess resolveu fazer um bolo de  chocolate, cuja receita havia, aprendido com Dorie. 
    Assim, no dia do aniversrio, l estava o bolo sobre a mesa da cozinha, belo e tentador, com as raspas de chocolate sobre um fundo branco de glac, formando a frase Feliz Aniversrio em caprichosas letras. 
    Depois de arrumar a mesa, Tess foi cuidar de outros assuntos relativos a seu trabalho na casa. Estava alegre e bem disposta. Cantarolava uma cano antiga, quando entrou na cozinha, vindo da sala principal, com um frasco de lustra-mveis e um pano de limpeza nas mos. Seus olhos se arregalaram e ela estacou, muito plida, diante da cena a sua frente: 
    O bolo, o lindo bolo de chocolate, jazia espatifado no piso da cozinha. Era evidente que havia sido atirado contra a parede e escorrido ao cho. As marcas nos azulejos revelavam o fato. 
    Em p, com o chapu cado para frente, escondendo-lhe parte do rosto, Callaghan parecia disposto a entrar em combate de um minuto para o outro. Percebendo a presena de Tess no recinto, ele voltou-se e fulminou-a com aqueles olhos negros que pareciam lanar chispas. 
     Suponho que isto tenha sido idia sua.  Ele apontava para o bolo desfeito, no cho. 
     Eu... eu s queria que seu aniversrio fosse lembrado  ela gaguejou, trmula. 
     No preciso que ningum me lembre dessa data idiota. 
 A voz de Callaghan soava rspida e cortante.  No 
quero bolo, festa ou presentes. Desejo apenas que me deixem em paz, ouviu bem? Em paz! 
     Sinto muito  Tess murmurou, quase chorando. 
     Sente muito...  ele retrucou, em tom de desdm.  Voc devia cuidar dos assuntos que lhe dizem respeito, em 
vez de ficar se metendo onde no  chamada. 
     Vou fazer isso  ela conseguiu dizer. 
      bom que o faa, mesmo. 
    A porta que dava para o ptio se abriu e Reynard entrou a passos largos, fugindo do frio e da neve. 
     Estou gelado  disse, esfregando as mos.  Preciso de um caf bem...  Ele se deteve bruscamente, ao ver Tess transfigurada. 
Os olhos do caula dos Hart correram pela cozinha, passando pelo rosto de Callaghan, pela parede suja de chocolate e fixando-se no cho, onde o bolo esmagado explicava o que havia acontecido. 
    Aproximando-se do irmo, Reynard tocou-lhe o ombro e 
recomendou, com voz pausada: 
    - Ei, homem, procure se controlar. Olhe s para Tess... est apavorada. 
    Callaghan piscou duas ou trs vezes, parecendo ter dificuldade em focar Reynard, que anunciou: 
     Os caminhes chegaram. Preciso das notas fiscais, para despach-los. Voc poderia cuidar disso, mano? 
    Como um autmato, Callaghan caminhou para a sala, 
passando por Tess, que se encolheu como um animalzinho 
assustado. 
     Obrigada por me salvar  ela balbuciou, a ss com Reynard.  Seu irmo estava fora de controle. Cheguei a temer que ele me agredisse fisicamente. 
     Callaghan jamais chegaria a isso, acredite  Reynard sentenciou. 
     Sinceramente, no sei em que acreditar, agora. Nunca o vi to furioso. 
     Ele odeia seu prprio aniversrio. Voc foi avisada a esse respeito, Tess. 
    Sim... Mas existem limites para se manifestar um desagrado. Isso que acaba de ocorrer parece loucura... J  uma questo patolgica. 
     Aconselho-a a falar mais baixo e medir suas palavras. Callaghan ainda no se acalmou o suficiente. 
    Para sua surpresa, Tess ouviu-se dizendo: 
     Pouco me importa se ele ouve ou no o que digo. Estou farta de suportar o mau humor de Callaghan. Tudo o que fao parece ser errado, ou insuficiente. Vivo dentro de uma expectativa constante de ser repreendida ou mandada embora. Ao que tudo indica, Callaghan no gosta de mim. E nada do que eu fizer mudar esse fato. 
    Reynard a fitava, surpreso. Certamente jamais imaginara que aquela criatura to frgil e doce pudesse se expor daquela maneira. 
      preciso compreend-lo, Tess. Meu irmo tem srios problemas, como voc bem sabe. Mas  um homem justo e sincero, capaz de muita bondade. 
     No duvido. Mas a verdade  que no estou interessada em saber mais nada que diga respeito a Callaghan Hart. 
     O que quer dizer com isso? 
     Que estou me despedindo  era respondeu, sem pestanejar.  Vou embora dessa casa. Preciso apenas de um pouco de tempo para arrumar as malas partir. 
     No meio do inverno?  Reynard retrucou, perplexo. -Para onde... Fazer o qu? 
     No sei e nem me importo. Quero sair daqui e pronto.     Reynard aproximou-se e, apoiando a mo no ombro de 
Tess, disse em voz pausada e suave: 
     Voc est muito nervosa. No tome uma deciso to 
importante, nesse estado de esprito, pois poder se arrepender depois. 
    Ela sorriu, com tristeza, antes de retrucar: 
     A verdade, Reynard,  que venho pensando sobre esse assunto h muito tempo. A circunstncia que determinou minha entrada nesta casa, a servio de sua famlia, era em grande parte emocional.  A morte de meu pai, a ausncia de parentes a quem eu pudesse recorrer... minha pouca idade... Com tudo isso, vocs se sentiram na obrigao moral de me acolher. 
     Espere um pouco, Tess Brady. ele protestou, com veemncia.  Voc no  uma indigente e esta casa no  um lar de caridade. 
     Eu sei, mas acontece que... 
    - Voc trabalha arduamente, faz por merecer cada tosto que recebe. 
     Fico feliz que voc pense assim... 
    Ele a interrompeu pela segunda vez, erguendo a mo num gesto imperativo: 
     Alm do mais voc parece desconsiderar a amizade e o carinho que todos ns lhe dedicamos, com exceo de Callaghan. 
    As lgrimas vieram aos olhos de Tess e, incontrolveis, correram-lhe pela face plida. Ela respirou fundo antes de dizer, com a voz alterada pela emoo: 
     Ponha-se no meu lugar, Reynard. Voc suportaria ser tratado como fui ainda h pouco pelo seu irmo, sem responder com uma atitude drstica? 
    Ele ficou pensativo por um longo momento. E s ento respondeu: 
     Se voc soubesse o que j suportei, de Callaghan, ficaria muito espantada.  Aps uma pausa, prosseguiu:  Mas meu caso  diferente. Afinal, Callaghan  meu irmo. E o sangue fala mais alto. Alm do mais, eu sei que existe uma pessoa maravilhosa, por trs daquela fachada rude e muitas vezes intolerante. 
     Voc no sabe h quanto tempo venho esperando uma palavra simptica, um gesto de incentivo da parte dele... E nada S vejo desaprovao e desagrado, no rosto de Callaghan.  como se minha presena o incomodasse, a um nvel insuportvel. 
     Percebo. No deve ser nada fcil, para voc. Mesmo assim, acho que devia reconsiderar... 
    Ela meneou a cabea, num enrgico gesto de negao, ao mesmo tempo em que abria a porta do armrio embutido que continha utenslios de limpeza. Livrou-se do lustra-mveis e do pano de limpeza e, pegando uma vassoura e uma pequena p, comeou a recolher os restos do que fora um lindo bolo de aniversrio. 
    Reynard, porm, continuava tentando demov-la de seus propsitos. 
     Por que voc no se d um tempo, para pensar melhor? Tire uns dias de folga... V a San Antonio fazer umas compras e se divertir um pouco. 
    Tess sorriu, em meio as lgrimas. E sua voz soou carregada de gratido, ao dizer: 
     No esperava que voc se importasse tanto comigo. Muito obrigada, Reynard. No me esquecerei de sua bondade. Mas minha deciso est tomada. Partirei assim que arrumar a bagagem. 
    Com um suspiro, ele ergueu as mos no ar num gesto de desnimo e foi servir-se de caf. 
    Tess terminou a limpeza em silncio. Com determinao, guardou os utenslios e saiu da cozinha. 
    Reynard colocou a xcara vazia sobre a mesa e ento caminhou para o interior da casa, em busca de Callaghan.      Encontrou-o no escritrio, curvado sobre uma pilha de documentos, assinando notas fiscais e conferindo nmeros; 
     Voc conseguiu, mano  Reynard afirmou, aproximando-se lentamente. 
    - O que disse?  Callaghan resmungou, sem interromper o que fazia. 
     Tess Brady est arrumando seus pertences. Ela vai deixar nossa casa. 
     Certo. 
     Voc me ouviu bem? 
     Sim  Callaghan respondeu, erguendo o rosto.  O que quer que eu faa? Que v pedir a ela que no parta? 
     No sei se adiantaria. Tess me pareceu muito decidida.
    Ento, est resolvido. No quero que ningum trabalhe aqui contra a vontade. 
     V pedir-lhe desculpas. 
     Callaghan encarou-o, como se ele tivesse acabado de  
confessar um absurdo: 
     Voc ficou maluco, Reynard? 
     No, mano. Voc  que perdeu o controle. V se desculpar, antes que seja tarde. 
     Ora, no me aborrea.  Callaghan retrucou, bruscamente. 
     Errar  humano, rapaz. Mas insistir no erro  uma tolice. Eu o conheo Callaghan. Mais cedo ou mais tarda, voc vai sofrer por ter cometido essa injustia. Pense bem. 
    - A verdade  que ela me irrita. Ser que ningum avisou-a que detesto aniversrios, bolos e todas essas bobagens? 
    - Ela s quis ser gentil, mano. Reynard tocou-lhe o ombro, num gesto de carinho.  Tess  uma boa pessoa.  muito jovem, um tanto frgil, e est sozinha no mundo. Somos como uma famlia para ela. No a deixe partir assim. 
    Callaghan ficou em silncio por alguns instantes. 
     H momentos em que no sei quem  o irmo mais velho nesta rasa  resmungou, enquanto acabava de assinar os papis, que entregou a Reynard.  Distribua estas notas entre os motoristas. 
    Reynard assentiu e perguntou: 
    - Voc vai falar com Tesa? 
    -Vou  Callaghan respondeu, exasperado.  Com todos os diabos, vou. 
    Reynard sorriu, apanhou as notas e saiu do escritrio.: 
    Ao menos daquela vez, tinha conseguido convencer Callaghan... E isso no era pouco, ele bem o sabia. 
    L fora, a neve caa em profuso e o vento soprava com fora. Reynard aproximou-se do grupo formado por Leopold, motoristas e ajudantes. Brandindo os papis, anunciou: 
     Est tudo aqui. Peguem as notas e caiam fora, rapazes.   
  Os motoristas e ajudantes partiram, acenando em despedida. A ss com Reynard, Leopold perguntou, de mau humor 
     Por que demorou tanto? Aqueles homens estavam quase congelando de frio. 
     Callaghan teve um de seus ataques nervosos. 
     Mas por qu?  Leopold espantou-se.  O que foi que ele lhe disse, desta vez? 
     A mim, nada. Mas partiu para cima de Tess, que alis est arrumando as malas para Ir embora  Reynard resumiu. 
     Era s o que faltava!  Leopold exclamou, entre surpreso e penalizado.  Como aconteceu isso? 
     Tess fez um bolo de aniversrio para Callaghan e deixou-o sobre a mesa da cozinha... Foi o suficiente para lev-lo a um terrvel estado de fria. 
     Ele jogou o bolo em Tess? 
     Na parede. E deve ter lhe falado coisas terrveis, pois ela estava plida como morta, tremendo dos ps cabea. 
     Que idiota! 
     Ela ou ele? 
     Ambos. J no avisamos Tess sobre as manias de  Callaghan? 
     Parece que ela no acreditou  Reynard murmurou, meneando a cabea. 
     Agora, ela j sabe. Mas de que adianta? Tess vai embora, sabe Deus para onde, em pleno inverno, e todos saem perdendo nessa histria  Leopold sentenciou, com desgosto. 
     Ainda existe uma esperana. Convenci Callaghan a pedir-lhe desculpas. 
     No acredito!  Leopold espantou-se.  Como voc fez isso? 
     No importa. O fato  que ele vai tentar. 
    Tentar, voc disse bem. Ela pode no aceitar as desculpas. 
     Se isso acontecer, Dorie  capaz de romper relaes com Callaghan. Ela tem um grande carinho por Tess. 
     Todos ns gostamos da Tess. At mesmo Simon, com aquela pose de grande advogado, trata-a com muita com deferncia. 
     Pudera. Alm de sua inegvel competncia, Tess colocou muita alegria dentro de nossa casa. 
     Agora s nos resta torcer para que Callaghan consiga convenc-la a ficar. 
     Duvido. Mas espero que sim. 
     Eu tambm. Vamos nos abrigar, mano, pois o frio est terrvel. 
    Ambos caminharam, apressados, em direo ao estbulo. 
    No interior da casa, Callaghan andava de um lado para o outro, procurando um modo de se desculpar com Tess, sem se expor excessivamente. Odiava aquela situao, mas no podia fugir. Ele mesmo havia criado o impasse e, agora, teria de resolv-lo. Decidido, caminhou a passos largos em direo aos aposentos de Tess, situados numa ala anexa  manso. A porta estava entreaberta. Callaghan empurrou-a com firmeza e entrou. 
    Passou pela ante-sala e chegou ao quarto. Sobre a cama, trs malas abertas mostravam seu contedo,  luz da lmpada de teto. Roupas dobradas cuidadosamente, toalhas grandes e pequenas, malhas de l, luvas.., tudo parecia obedecer a uma ordem rgida e meticulosa, ele notou, de relance, antes de deparar com Tess, que vinha do banheiro, muito abatida, mas determinada. 
    - O que voc quer aqui? ela indagou, rspida, ostentando uma segurana que o tremor de sua voz desmentia. 
    - voc pretende deixar esta casa. 
     Como voc pode ver.Tess, apontou as malas, sobre a cama .  exatamente esta a minha inteno 
     Voc no tem para onde ir. O que pretende fazer? 
    Tess tomou nas mos o cinturo que Ray Brady ganhara, ao vencer o Campeonato Nacional de Rodeios. Guardou-o cuidadosamente dentro da mala grande, cobrindo-o com uma toalha de rosto azul. S ento respondeu: 
    Vou pegar um nibus em Jacobsville para San Antonio. L pedirei abrigo nos alojamentos do Exrcito da Salvao, at conseguir um emprego. 
    - Voc tem idia do que est se propondo? Sabe que tipo de pessoas se abrigam nesses locais? 
     Seres humanos em dificuldades  ela respondeu , num tom cortante.  E  exatamente esta a situao em que me encontro, no momento. Voc poderia por favor, autorizar um de seus empregados a me conduzir at a cidade? 
     V com calma, srta. Brady. A nossa conversa ainda no terminou.  E Callaghan encostou-se na parede, cruzando os braos, como se tivesse todo o tempo do mundo  sua disposio. 
    Tess deu de ombros e continuou a arrumar as malas. Tinha algumas economias e, se fosse preciso, telefonaria a um ponto de txi em Jacobsville. O dinheiro que gastaria para pagar a corrida de txi at a cidade faria falta, sem dvida, ela pensou preocupada. Mas, qualquer coisa seria melhor do que permanecer naquela casa. 
    No interior do guarda-roupa, s restara seu velho casaco Pegando-o, ela o vestiu, com gestos que pretendiam ser precisos, mas denunciavam, uma forte tenso. 
     Onde est o casaco de couro que lhe demos no Natal? 
 Callaghan perguntou 
     Deixei-o no sof da sala. No vou lev-lo comigo
     E por que no, se foi um presente? 
     No quero presentes, emprego ou qualquer outra forma de caridade que venha de voc Sou perfeitamente capaz de trabalhar e adquirir o que necessito para sobreviver.
     Voc precisava de emprego e, ns, de uma governanta. Fizemos uma troca e no um gesto de caridade. 
     Foi o que pensei, a princpio. Mas com o correr dos dias, recebendo suas constantes reprovaes e seu inabalvel mau humor, acabei me convencendo de que estava nesta casa por caridade. 
     Sinto muito se lhe dei essa impresso.  Callaghan parecia surpreso, com as palavras de Tess. 
     Creio que seja um pouco tarde para esse tipo de conversa. Um nico gesto seu, de aprovao ou camaradagem, teria aliviado minha insegurana na difcil fase que passei, durante a adaptao ao trabalho. Mas infelizmente, no foi assim. 
    Callaghan a fitava como se a visse pela primeira vez. Tess Brady era, de fato, pouco mais que uma menina assustada, magoada e decidida a sair de uma situao que a machucava. Foi isso que ele constatou, enquanto seu corao generoso se comovia, diante daquela cena. E quando Callaghan voltou a falar, sua voz soava diferente... Mais calorosa... E humana. 
     Voc no precisa fazer isso. Posso me desculpar, se for o caso. 
     No se force a tanto  ela retrucou.  Alm do mais, seria intil. 
    Ele fechou os olhos, num evidente esforo para se controlar. Estava convencido de que agira mal, deixando-se levar por um impulso agressivo que nada tinha a ver com Tess Brady, mas que a fizera sofrer. Era hora de abrir seu ntimo, por mais doloroso que isto fosse, Callaghan decidiu. E comeou a falar, lentamente: 
     Quando estava prestes a completar seis anos, pedi a minha me que fizesse um bolo de aniversrio. Queria que meus irmos e amiguinhos viessem  festa.  Aps uma pausa, prosseguiu:  Foi um desastre total. Papai, Simon e Corrigan tinham ido  cidade. Apenas Leopold estava em casa. E Reynard ainda no era nascido. 
    Callaghan afastou-se da parede, deu uns passos pelo. quarto, com as mos nos bolsos da jaqueta, os olhos negros: 
fixos em algum, lugar do passado. Sua voz soou sombria e tristonha, ao continuar: 
     Minha me preparava o bolo com gestos bruscos, como se algo a incomodasse. Sobre a mesa havia uma garrafa de um lquido transparente, de odor adocicado, que ela entornava constantemente num copo longo, misturando-o com suco de laranja. Parecia cada vez mais estranha e comecei a ficar com medo. 
Callaghan respirou fundo e calou-se. Quando voltou a falar, era como se cada palavra lhe custasse um esforo imenso: 
     Quando o bolo enfim ficou pronto, minha me j estava totalmente embriagada. Comeou a espremer uma bisnaga de chocolate por sobre o bolo, a mesa, os copos. Ria como uma louca e dizia coisas sem sentido, palavras horrveis sobre meu pai e todos os nossos conhecidos. Tentei impedi-la, segurando-lhe o brao. Ento, ela pegou o bolo e o esfregou no meu rosto. Senti-me sufocado pela surpresa e horror, diante daquela cena chocante. 
    Tess, que havia interrompido o gesto de fechar uma das malas, tinha os olhos arregalados. Ouvia cada palavra como se pudesse assistir, em detalhes, o triste fato ocorrido h tanto tempo. 
     Os anos se passaram e nunca pude esquecer aquela cena. Depois disso, jamais  permiti que comemorassem meu aniversrio. Depois que Reynard nasceu, mame foi embora e nunca mais tivemos notcias dela. 
     E uma histria triste  Tess comentou, em voz baixa e grave.  De algum modo posso imaginar o quanto vocs  sofreram... Pois minha me tambm abandonou meu pai e  a mim, quando eu era ainda muito pequena. 
     Ento voc pode compreender, minha averso por bolos e aniversrios... 
     Sim. S que isso explica, mas no justifica, o ato que voc cometeu. Afinal, no podemos descarregar, em outras pessoas, os nossos traumas... Por mais terrveis que sejam. Ele ficou em silncio, por um longo momento. Por fim, assentiu: 
     Minha atitude foi imperdovel, eu sei. Mas o que posso fazer para que voc volte atrs em sua deciso de partir?,  De sbito, a voz de Callaghan assumiu um misto de amargura e ironia.  Quer que eu me ajoelhe a seus ps? 
     Seria ridculo. 
     Oua, Tess Brady... Existem outras pessoas nesta casa e nesta famlia que, de uma maneira ou de outra, gostam muito de voc. No seria justo deix-las, por causa de um conflito entre ns. 
    O argumento abalou a forte determinao de Tess, e tambm sua estrutura emocional,  j fragilizada pela situao. Ela no queria admitir, mas os Hart ocupavam, em seu corao, o lugar da famlia que ela jamais tivera. 
     Eu disse a Dorie que ensinaria umas canes folclricas ao beb, assim que ele comeasse a falar  ela murmurou, com os olhos rasos de lgrimas. 
     Leopold e Reynard vo me tratar com frieza por um longo tempo, se voc se for...  ele afirmou.  Ser assim que demonstraro seu ressentimento. Isto, sem falar na sra. Lewis. Nem sei o que ela ser capaz de fazer. Talvez chegue a envenenar minha comida... 
     Ora, no exagere  ela retrucou, num tom mais ameno. 
    Tess vacilava visivelmente, Callaghan constatou, aliviado Isso significava que havia uma possibilidade de ela ficar. 
    Por alguns instantes, Callaghan perguntou-se o quanto o atingia, na verdade, a partida ou a permanncia daquela jovem e bela mulher. Estaria realmente preocupado com a reao da famlia, ou era por ele mesmo que queria manter Tess na propriedade? 
    Meneando a cabea com energia, para afastar aqueles incmodos pensamentos, afirmou com severidade: 
     Bem... Eu j disse tudo quanto poderia sobre o assunto.  E lanou um ltimo trunfo:  Se voc no quiser reassumir totalmente seu compromisso conosco, fique ao menos at a primavera.  uma estao mais propcia a mudanas, no acha? 
    Tess no respondeu e ele prosseguiu: 
      Pense nisso. Se precisar de mim, estarei no escritrio, 
E saiu. 
    Nos dias que se seguiram ao confronto de Tess com Callaghan, ningum comentou o acontecido. Parecia que todos estavam de comum acordo, embora nada houvesse sido combinado. 
    Na verdade o assunto no transpirara fora do crculo dos trs irmos e Tess. Nem mesmo a sra. Lewis se dera conta de que algo diferente ocorrera na casa. Tambm Simon, Corrigan e Dorie no tomaram conhecimento do fato. 
    Assim, a vida voltou a transcorrer dentro da normalidade esperada. As viagens de negcio e a inspeo das outras propriedades da famlia mantinham Callaghan fora de casa por mais tempo do que o costume. Tess desconfiava que havia um certo excesso, naquelas ausncias. Porm, era modesta demais para atribuir a si qualquer importncia no fato. 
    A grande novidade daqueles dias foi a modernizao do sistema de computao da fazenda, com a chegada de novos micros e perifricos. Leopold, responsvel pela inovao, assumiu a direo do novo sistema. E de maneira suave, mas firme, comeou a envolver Tess no trabalho. 
    A princpio, foi como uma brincadeira: uma cpia de fatura, uma pesquisa na Internet ou a digitao de uma circular, que ele confiava a Tess quando Ela vinha trazer-lhe caf ou suco. Em pouco tempo, ela tomou gosto pelo assunto, passando horas no escritrio sem se dar conta disso. 
Por uma decorrncia normal, a sra. Lewis comeou a assumir algumas ocupaes domsticas, que antes cabiam a Tess. E o fazia de bom gosto, percebendo intuitivamente as intenes de Leopold e aprovando-as. 
     No h nada de errado em ser cozinheira ou governanta  dizia ela, com freqncia  Mas temos o dever de desenvolver nossas habilidades, quando ainda somos jovens. 
     Concordo, sra. Lewis  Tess opinava.  De fato, estou adorando aprender informtica. Mas preocupo-me por estar deixando minhas obrigaes em suas costas. 
     Par mim,  um prazer ser til. V em frente em aprendizado. e no pense mais nisso. 
    No de todo convencida Tess, mergulhava naquela aventura com uma sede de saber que, at ento, jamais imaginara possuir. Sob a orientao de Leopold, estudava livros de informtica. Dedicava suas horas, de folga a aprimorar  seus conhecimentos. E nunca se cansava de aprender.
    O inverno perdia seu rigor e pouco a pouco ia dando lugar  primavera, que j se anunciava com o canto tmido de alguns pssaros, nos dias mais longos e de brilho mais intenso. 
    Os primeiros resultados de tanto empenho de Tess comearam a aparecer, na prtica, para grata surpresa de Leopold, que era seu grande incentivador. 
    O tempo passava de maneira agradvel, sem grandes incidentes. Havia no ar promessas de flores e brisas amenas. Quase sem se dar conta, Tess viu chegar seu aniversrio como mais um dia de trabalho. Completaria vinte e dois anos sem que ningum da casa tomasse conhecimento, exceto a sra. Lewis, de quem arrancara, a duras penas, promessa de absoluto silncio. 
     Agora Tess se ocupava da cozinha apenas em  ocasies especiais, quando resolvia preparar um prato saboroso,
segundo seu palpite e vontade. No mais, at mesmo a administrao da cozinha estava a cargo da sra. Lewis, que por sinal recebera um aumento significativo no salrio. 
    Certa, tarde, Tess estava diante do computador, quando Leopold entrou na sala e interpelou-a inesperadamente: 
    - Pagamos voc to mal assim? 
     Como?  ela reagiu, confusa. No entendi o que voc perguntou. 
     No me leve a mal, Tess, mas voc usa praticamente as mesmas roupas, todos os dias, como se no tivesse outras. Qual  o problema? 
    Ela corou profundamente, antes de responder com sinceridade: 
     Na verdade meu guarda-roupa  bastante limitado... Afinal, para exercer meu servio de governanta, eu precisava apenas de um uniforme. Agora, que estou trabalhando aqui no escritrio, tenho procurado variar um pouco.  Tess olhou para si mesma. Estava usando um jeans, uma camiseta azul, um tanto velha, e mocassins em idnticas condies. Sorrindo, constrangida, acrescentou:  Para ser franca, no me restam muitas opes para variar o vesturio... 
     Foi o que pensei. E, para dizer a verdade, acho que voc deveria usar roupas mais apropriadas ao trabalho que agora est desenvolvendo. No que eu tenha algo contra jeans, camisetas, ou... 
     Eu compreendo, Leopold  ela o interrompeu, cada vez mais envergonhada.  Prometo que, a partir de amanh, procurarei algo mais adequado, para vestir. O fato  que... 
    Tess no conseguiu terminar a frase. Pois Leopold estendeu, em sua direo, um cheque cujo valor deixou-a sem flego. 
     O que significa isso?  ela perguntou, atnita. 
      para voc. Tire um dia de folga e v fazer umas compras, em Jacobsville. 
     No posso aceitar  Tess murmurou.   demais... 
      uma forma de agradecimento pelo que voc vem fazendo no escritrio. Mais tarde pensaremos numa remunerao condizente a seu trabalho. 
    Foi com uma sensao mista de excitao e temor que, dois dias depois da conversa com Leopold, Tess pegou uma carona para Jacobsville, com Reynard. Ia decidida a comprar apenas o essencial: dois ou trs conjuntos, algumas blusas e calas, uns pares de sapatos... Mas quando o dia findou e Reynard veio encontr-la no local combinado, espantou-se ao v-la com uma grande quantidade de pacotes e sacolas. 
     Acho que perdi o controle  Tess confessou, um tanto Constrangida 
     Ora, a maioria das mulheres costuma gastar muito mais do que o previsto, quando vai s compras  ele comentou, sorrindo com simpatia.  Deixe-me ajud-la. 
    Ambos voltaram para o rancho, conversando sobre amenidades, num clima descontrado e agradvel. 
    Naquela noite, depois do banho, Tess sentiu vontade de experimentar um conjunto bege, que a agradara pela delicadeza do tecido, a elegncia do corte e dos detalhes 
dados em torno da gola e punhos. Em frente ao espelho surpreendeu-se, achando-se bela e atraente. Sua pele fresca e corada e os olhos verdes pareciam ter adquirir um novo brilho. At mesmo sua postura estava diferente, mais ereta, denotando autoconfiana. 
    O conjunto bege, tal como Tess j havia comprovado numa loja de Jacobsville, caa-lhe.com perfeio. E isso causava-lhe um indescritvel bem-estar. 
    Mas ainda faltava um detalhe... Tess disse para si, apressando-se para pegar a escova de cabelos. Aps escovar por vrias vezes os cabelos ruivos e encaracolados, conseguiu um surpreendente efeito. Os cabelos caram-lhe como urna cascata de fogo, vigorosa e brilhante, ao redor do rosto de traos delicados. 
    Tess sorriu. E ento pareceu-lhe natural tomar o batom e cobrir os lbios macios com uma leve camada rsea. Mirou-se com uma expresso crtica e sorriu, satisfeita, diante da imagem refletida. Ali estava uma jovem mulher, atraente, interessante, capaz de sonhos e desejos,  to diferente da pessoa inspida e sem graa que acostumara-se a ser no cotidiano do lar ds Hart . 
    As horas avanava em sua eterna marcha... O silncio reinava na velha manso . ... .. 
    Tess sentiu um impulso imperioso de sair do quarto, atravessar a sala acender as luzes e ganhar a ampla varanda que se abria para noite estrelada, para o cu dominado 
pelo aro fino da lua minguante. E foi o queTess fez. 
    Permaneceu na varanda por um bom tempo, andando de um lado para o outro. Por fim sentou-se numa espreguiadeira, deixando que a mente vagasse livremente, enquanto o tempo se traduzia no movimento dos astros. 
     A noite est muito bonita, no acha? . A voz de Callaghan Hart fez com que Tess estremecesse violentamente, como se de sbito fosse arrancad de um sonho. 
     Desculpe se a assustei  ele disse, aproximando-se. 
 O que faz, acordada a esta hora da noite? 
      Estava olhando as estrelas... Pensando... Sentindo... 
 ela respondeu, vaga, fazendo meno de erguer-se da espreguiadeira. 
     No, por favor... Fique! 
    Tess obedeceu. Recostou-se novamente na espreguiadeira, enquanto fitava a silhueta alta e esguia de Callaghan, recortada contra o cu cheio de estrelas, mais claro do que a penumbra que reinava na varanda. 
     Tenho passado muito tempo fora do rancho: mas Leonard me contou sobre seus progressos . Callaghan comentou, aps alguns instantes.. Eu no sabia que voc gostava de computao. 
     Para ser sincera, nem eu. 
    Para surpresa de Tess ele riu, divertido, recostando-se na pilastra da varanda antes de dizer: 
     As melhores coisas da vida s vezes ocorrem assim, ao acaso. E preciso estar atento s oportunidades. 
     Entendo o que voc quer dizer. Mas h pocas em que a vida parece correr to lentamente e sem perspectivas, que sonhar  quase um absurdo. 
     O sonho  necessrio, sempre. Mais do que um direito, ele faz parte das realizaes futuras do ser humano criativo, como um farol que guiasse um barco at o porto. 
    O riso de Tess soou como sinos de prata na noite silenciosa, Callaghan pensou, antes de perguntar: 
     Do que voc est rindo, Tess Brady? 
     Do inesperado, callaghan Hart. Nunca imaginei que algum dia fosse ouvi-lo dizer coisas desse tipo. 
     Pareo to insensvel assim?  ele reagiu, entre ofendido e confuso. 
     No foi isso que eu quis dizer  ela apressou-se a explicar.  Mas voc  sempre to direto, objetivo, prtico... 
     E de que outra forma poderia dirigir os negcios da famlia? 
    - As pessoas acabam se tornando muito parecidas com aquilo que fazem, no  mesmo? 
    Agora era Callaghan quem se surpreendia. 
     Voc diz coisas inesperadas e profundas, que vo alm de sua experincia e idade. Afinal, quantos anos voc tem?
     Completei vinte e dois, alguns dias atrs. 
    Mal acabou de falar, Tesa arrependeu-se. Seu aniversrio era um segredo que queria manter s para si. Mas o fato era que a pergunta de Callaghan parecera-lhe to natural e espontnea quanto a resposta que ela acabava de dar... 
     Vinte e dois...  Callaghan repetiu, pensativo. Trata-se de uma idade to mgica... E voc entrou nela sozinha. Por qu? 
     So tantos os motivos, que nem sei como dizer. 
    Callaghan voltou-se para contemplar a noite: De sbito parecia longe dali, mergulhado em profundos pensamentos 
    Ainda sentada, Tess o observava, incrdula. Nem em seus mais loucos sonhos teria podido criar uma situao como a que vivia, no momento. Ela e Callaghan estavam conversando com uma intimidade que fazia supor existir, entre ambos, uma grande considerao e amizade.. 
    De repente, Tess sentia vontade de indagar, em alto e bom som: 
    Mas o que est acontecendo? O que mudou to radicalmente, a ponto de possibilitar essa conversa, esse tom amigo,a essa sugesto de carinho em sua voz? Alis, a mesma que aprendi, dolorosamente, a temer?! 
    Mas no tinha foras para tanto. Estava imobilizada pela magia do momento e sentia-se presa de uma intensa emoo.
    Foi somente depois. de um longo momento que Callaghan voltou a falar, dessa vez num tom muito baixo: 
     Vivo to mergulhado em meus problemas, que s vezes me esqueo da vida que pulsa em torno. No deve ser fcil para algum to jovem quanto voc, para Reynard e mesmo Leopold, viver unicamente para o trabalho, em meio a vaqueiros rudes e assuntos que se tornam desinteressantes pela repetio contnua. 
     No  bem assim... 
    Tess tentou protestar, mas ele prosseguiu com sua linha de pensamento: 
     Bem fez Corrigan em edificar seu lar, com Dorie e beb, a uma distncia conveniente. L eles podem criar um ambiente menos tenso e mais harmnico, para a famlia que esto construindo.  Havia uma infinita tristeza na voz de Callaghan.  Reconheo que tenho administrado bem os negcios, mas como lder da famlia falta-me elasticidade e tempo interior para perceber certas delicadezas, nas relaes pessoais. Sou mesmo um fracasso, neste sentido. 
     Voc est sendo excessivamente rgido consigo  Tess opinou. 
     Pode ser. E talvez seja este o problema: exigir demais de todos, a partir de mim mesmo.  E Callaghan concluiu, com um grande suspiro:  Mas isto no precisa ser sempre assim... 
     Aproximando-se com passos lentos, ele estendeu a mo para Tess.  Venha comigo. Quero lhe mostrar uma coisa. 
No havia como resistir ao convite, ela concluiu, aceitando  a mo estendida, erguendo-se e caminhando ao lado dele,  pela varanda iluminada apenas pelo reflexo das estrelas e  pela tmida lua minguante. 
     Ambos atravessaram a sala e caminharam em silncio  at a porta do quarto de Callaghan, onde ele se deteve. 
 Espere um momento, sim?  pediu, libertando a mo de Tess, que trazia presa a sua. E entrou no quarto, deixando a porta aberta. 
    Tess navegava num mar desconhecido e, estranhamente, no tinha medo. A impresso forte, quase insuportvel, daquela mo poderosa e mscula envolvendo a sua, anulara qualquer outra sensao exterior. Jamais se sentira assim, em presena de outro homem. Havia um tal magnetismo em Callaghan, naquela noite, que era impossvel agir ou pensar de maneira normal em sua presena, ela pensou, confusa.  
    Minutos depois, Callaghan voltou, exibindo um sorriso nos lbios. 
    E Tess pensou que aquele homem deveria sorrir mais, Pois assim tornava-se ainda mais belo do que j era... 
     Aqui est.  Ele entregou-lhe um pequeno estojo de veludo azul.  Abra, por favor. 
    Ela obedeceu, mais aptica que curiosa. E tomada por urna onda de perplexidade, deparou com um pingente em cujo centro havia uma linda safira, cercada de minsculos brilhantes incrustados em platina. A corrente, fina e delicada, era de prata. 
     Nunca vi algo to belo, em toda minha vida  confessou, num sussurro. E quase perdeu o flego quando Callaghan, tirando a jia do estojo, colocou-a em torno seu pescoo. 
     O  que significa isso?  ela indagou, num fio de voz
      para voc. Aceite, por favor. 
     O qu? Tess empalideceu.  Isso  uma brincadeira ou voc ficou louco? 
     Nem uma coisa, nem outra.  Callaghan continuou a sorrir.  Trata-se apenas de um presente, ou melhor um modo de dizer obrigado por tudo o que voc tem feito nesta casa, desde que comeou a trabalhar aqui. 
     Fico muito feliz por ouvi-lo falar assim  Tess declarou, emocionada.  Voc no imagina o quanto me comoveu este elogio que, eu bem sei,  sincero. 
     Absolutamente sincero  ele confirmou. 
     Obrigada por me dizer isso, Callaghan. Suas palavra tm, para mim, um valor inestimvel.  Tess levou as mos ao pescoo, tentando retirar a jia,  sem sucesso.  Mas um presente desse porte...  demais. No posso aceitar. 
     Deve  ele retrucou, muito srio.  Ficarei muito ofendido, se voc recusar... 
     Mas uma jia como esta...  Tess o interrompeu, com veemncia.  Parece... no mnimo.., imprpria. 
    Ele voltou a sorrir. Acariciou levemente os cabelos de Tess, num gesto ntimo e significativo. 
     Voc est numa situao complicada, srta. Tess Brady... Ou aceita o presente, contra seus princpios, ou ofende um homem que est lhe oferecendo sua amizade. 
    Ela baixou os olhos e depois os ergueu, at faz-los mergulhar no escuro brilhante e misterioso dos de Callaghan. 
     No h uma terceira alternativa?  perguntou, por fim.    Ele meneou a cabea, em sinal de negao, o sorriso  estampado nos lbios sensuais e msculos. 
    Tess engoliu em seco, mordendo levemente o lbio inferior. Ento, num flash, entendeu o porqu de tudo. E sua voz tremeu, quando ela concluiu: 
      um presente de despedida... Certo? Devo partir amanh? 
     Como? 
      primavera, Callaghan. E voc tinha me sugerido que partisse depois do inverno... 
     Ah, ento  isso?  Ele se recordou da j longnqua tarde em que Tess ameaara deixar a casa. E levou alguns instantes para declarar: Se quer mesmo saber os motivos que me levaram a lhe dar esta jia, eu direi: comprei-a h muito tempo, para uma pessoa que julgava amar. Depois tudo acabou e, ento, pensei em desfazer-me dela. Esqueci-a no fundo de uma gaveta durante um bom tempo. Mas quando soube, agora h pouco, de seu aniversrio, achei que seria uma boa idia d-Ia a voc.  E Callaghan acrescentou:  Tambm  uma forma de me desculpar pela grosseria que cometi, no meu aniversrio, estragando o lindo bolo que voc preparou.  Ele suspirou e voltou a sorrir. 
     Bem, o que acha dessas explicaes, srta. Tess Brady? So suficientes para convenc-la? 
     Sim  Tess assentiu, entre embaraada e comovida. 
 Obrigada. 
     No tem de qu  ele retrucou, num tom brincalho. 
     Deseja mais alguma coisa, senhorita? 
     Sim  ela respondeu, muito sria.  Gostaria de saber se voc ainda acha que devo partir. E quando. 
     Espere chegar o vero  ele props, fitando-a com intensidade.  Depois voltaremos a falar no assunto Certo? 
     Combinado. 
     Ento, boa noite, Tess. 
     Boa noite, Callaghan.. 
     Ah, antes que eu me esquea... 
     Sim? 
    - Voc est muito bonita, esta noite. Parece mais madura.., feminina. 
     So as roupas novas... Senti vontade de experimentaIas, nem sei bem por qu. 
     Voc tem bom gosto, sabia? Este conjunto lhe cai muito bem. 
     Obrigada... 
Ambos ficaram se olhando, em muda interrogao, como se tivessem muito a dizer um ao outro, mas no soubessem como faz-lo. Ento Tess voltou-se e caminhou pelo corredor que conduzia  sala, sentindo o olhar de Callaghan seguindo-a, enquanto seu corao disparava, invadido por uma emoo que ela jamais experimentara, at aquele momento. 
    Na manh seguinte, todos estavam bem-dispostos e mesmo alegres, em torno da mesa da cozinha. O caf recm-coado deixava no ar um aroma convidativo. E os biscoitos de nata estavam assando no forno. 
    Leopold, Reynard e Callaghan conversavam sobre o trabalho na fazenda e em outras propriedades. 
Tess acompanhava a conversa sem opinar, embora estivesse interessada no assunto. A sra. Lewis tinha ido  cidade. Assim, as responsabilidades domsticas da casa, inclusive o preparo do desjejum, seriam de Tess, at a hora do almoo, quando a sra. Lewis retornaria 
    Retirando os biscoitos do forno, Tess colocou-os sobre a mesa e, pedindo licena, saiu da cozinha. Queria uma  parte da casa limpa e arrumada, antes que a sra. Lewis voltasse de Jacobsville. 
    Com a prtica que tinha naquele trabalho, Tess em pouco tempo deixou a sala em ordem, sem qualquer vestgio p. Os quartos deram um pouco mais de trabalho, Reynard tinha o costume de deixar as roupas usadas jogadas por toda parte. Leopold era mais organizado. Mas levava para o quarto, alm de sua correspondncia pessoal, livros e revistas, folhetos de propaganda e tudo mais pudesse ler, antes de dormir. J Callaghan era absolutamente asseado e organizado, mas evidentemente no deteria a poeira que se acumulava sobre o dossel que cobria sua enorme cama de casal. Retir-lo e bat-lo era um trabalho excessivo para a sra. Lewis. Por isso, Tess havia se encarregado dessa tarefa. E j que estava ali, no deixaria de cumpri-la... 
     Apoiando a escada de servio a uma das pilastras cama, Tess subiu os degraus e levantou a madeira que sustentava o cortinado, desencaixando-a com muito esforo. Ao fazer o cortinado correr em sua direo, perdeu o equilbrio e caiu sobre o colcho, levando na queda a pesada trave de madeira. Um grito escapou-lhe dos lbios, ao sentir o forte golpe da madeira contra a perna. 
    Callaghan, que vinha do escritrio ouviu o barulho seguido do grito e entrou no quarto correndo. 
     Voc se machucou!  exclamou, erguendo a trave de madeira e libertando a perna de Tess. 
     Est doendo muito.  Ela apertava, com ambas as mos, o local ofendido. 
     No tente se erguer. Vou lev-la ao mdico. 
     No  preciso  Tess protestou, com lgrimas de dor escorrendo-lhe pela face. 
     Fique quieta. 
    Tomando-a nos braos, como se ela fosse uma criana, ele caminhou rapidamente para fora do quarto. No corredor, deparou com Leopold, que perguntou: 
     O que houve? 
     O dossel desabou sobre Tess. Vou lev-la ao mdico. 
     Sempre achei um exagero essa sua mania de dormir numa cama imensa, com um dossel que mais parece ter sado de um museu, ou de um romance do sculo passado. 
     Isso no  hora de recriminaes, Leopold  Callaghan retrucou, rspido.  V cuidar de seu trabalho. 
     Coloque-me no cho  Tess pediu, debilmente. 
     Callaghan nem se deu ao trabalho de responder. Em poucos instantes saa da casa e caminhava em direo ao carro. Com alguma dificuldade, conseguiu acomodar Tess no banco traseiro e sentou-se diante do volante. 
     Agente firme, Tess. Logo estaremos l. 
    O trajeto at a cidade de Jacobsville foi feito em silncio 
e em alta velocidade. Agora Tess podia sentir o local da 
pancada latejando dolorosamente a cada buraco da estrada. 
    E cerrava os dentes, para no gritar de dor. 
    Fitando-a pelo espelho retrovisor, Callaghan sentiu uma profunda ternura por aquela garota frgil, a quem ignorara propositadamente, por tanto tempo. Parando no acostamento por alguns instantes, ele voltou-se e, num gesto espontneo, acariciou os cabelos de Tess. 
     Est doendo muito?  perguntou, docemente. 
     Sim  ela respondeu, baixinho. - 
     Acha que fraturou o osso? 
     No foi para tanto. Conheo ossos quebrados. Afinal, vivia assistindo a rodeios, por todo o pas, junto com meu pai... 
    Ele assentiu com um gesto de cabea e afirmou: 
    - Creio que uma radiografia nos deixar mais tranqilos; no acha? E retomou o trajeto. Algum tempo depois, anunciava:  J estamos chegando, Tess. agora, falta pouco. 
    Callaghan entrou em Jacobsville em alta velocidade transpondo os cruzamentos principais de modo arriscado, detendo-se apenas em frente ao pronto-socorro municipal. 
    Dispensando o auxilio dos enfermeiros e da maca, transportou Tess nos braos, at o local de atendimento. 
    O mdico de planto,  naquele dia, era o dr. Robert Shaw velho conhecido da famlia Hart. Depois de cumpriment-la, 
Callaghan explicou rapidamente: 
     Ela sofreu uma pancada na perna. Examine-a, favor. Estarei na saia de espera, aguardando.  E afagando o rosto de Tess, disse baixinho: Se precisar de mim,  s pedir para algum me chamar. Tudo ficar bem, acredite.. E saiu 
    A enfermeira despiu o jeans de Tess, com muito cuidado 
expondo a perna machucada. Um hematoma enorme havia 
se formado, logo acima do joelho. O mdico aproximou-se
e fez os exames habituais, com percia e habilidade. Mesmo 
assim, Tess teve de fazer um intenso esforo para no gritar 
a cada toque mais firme. 
     No creio que tenha atingido o osso  ele disse, por fim... 
     Foi o que pensei  Tess afirmou.  No era para tanto trabalho. 
    Mesmo assim, faremos uma radiografia.  Virando-se  para a enfermeira, ordenou:  D-lhe um sedativo para aliviar a dor e depois leve-a  sala de raio X. Irei para l  em seguida. 
    Cerca de meia hora mais tarde, o mdico dizia a Callaghan, na sala de espera: 
     A contuso foi sria, mas no afetou o osso. tess tomou um sedativo e dormir por algumas horas. Assim que acordar, poder voltar para casa. 
     Que boa notcia!  Callaghan exclamou, aliviado. 
     Ela precisar repousar, por alguns dias. No deve tentar andar, pois isso provocar dores, alm de atrasar o processo de recuperao do tecido afetado. 
     Naturalmente  Callaghan concordou.  Muito obrigado, Robert.  E estendeu a mo ao mdico, que apertou-a sorrindo. 
     No me agradea, amigo. Este  o meu trabalho. Agora, com licena. Preciso ver outros pacientes. 
    Sozinho na sala de espera, Callaghan ficou pensativo por um longo momento, contemplando atravs da janela, o dia esplndido que fazia l fora. Estava surpreso, no com o acidente em si, mas com os sentimentos de proteo e ternura que haviam brotado em corao amortecido. Sentimentos que por muito tempo julgara mortos e enterrados... Mas que agora ressurgiam, mais fortes e vivos que nunca. 
     Por essa voc no esperava, Callaghan Hart  disse a si mesmo, com um misto de espanto e desgosto.. 
    Q uinze dias se passaram, at que Tess se restabelecesse. Uma muleta de alumnio foi sua companhia fiel, durante esse tempo. A sra. Lewis havia proibido terminantemente de se envolver nos afazeres domsticos. Assim, os irmos Hart ficaram sem os preciosos biscoitos de nata de que tanto gostavam. Em compensao Leopold ganhou a mais dedicada funcionria que podia desejar. 
    Desde o acidente com o dossel, Callaghan voltara ao comportamento arredio de sempre. Cumprimentava Tess pela manh com um seco bom dia, tomava caf em silncio e saa para o trabalho. Suas viagens multiplicavam-se, mantendo-o distante dela durante a maior parte do tempo. 
    A princpio, Tess ressentiu-se daquele retrocesso nas relaes com Callaghan. Depois, riu de si mesma e de suas secretas iluses. No fundo, era uma romntica incorrigvel que se dera ao luxo de acalentar iluses impossveis, que mais mereciam ser esquecidas. 
    Numa manh de domingo, como no havia trabalho a ser feito no escritrio, ela resolveu se encarregar do almoo Queria experimentar uma receita diferente, que aprendera num programa de televiso: frango inteiro, desossado dentro e recheado com queijo e alcaparras. Depois, enrolado e amarrado como um rocambole, antes de ser levado  forno, num molho de laranja. Foi um sucesso. 
    Callaghan chegou a tempo de almoar e fez questo de ter presente  mesa, no s Tess mas tambm a sra. Lewis que havia providenciado um pav de chocolate divino, para a sobremesa. 
    A refeio transcorreu num clima alegre e agradvel. Todos estavam de timo humor e por isso Tess no se surpreendeu quando Callaghan a convidou para um passeio. 
     Voc gostaria de ver os cavalos que chegaram  fazenda, esta semana? 
     Adoraria  ela respondeu, sem reservas.  Estou bastante curiosa, principalmente sobre os quarto-de-milha. Reynard ficou de me mostrar, mas nossos horrios livres no coincidiram. 
     Voc anda trabalhando demais. 
     Como todos, alis. Na verdade, gosto desse ritmo. 
    Conversando, os dois se encaminharam para o estbulo. O dia estava agradavelmente quente. Uma brisa suave soprava, parecendo acariciar os sentidos e o corao. 
      Voc no se importa de ir a cavalo, no  mesmo?    disse Callaghan. 
     De maneira alguma. Adoro montar. S que faz muito tempo que no cavalgo. 
     Vou arrear a Estrela para voc. E uma gua bastante mansa, de andadura macia. 
    Tess simpatizou imediatamente com o animal. Era um belo espcime de cerca de trs anos, elegante e dcil. 
     Deixe-me colocar a sela  ela pediu. 
     Como quiser  Callaghan concedeu, um tanto surpreso. Iria montar um cavalo rabe, absolutamente negro, de uma beleza impressionante, inquieto e selvagem... 
    Bem ao estilo do dono, pensou Tess, sorrindo intimamente. E o passeio teve incio. Tess e Callaghan cavalgaram por um bom tempo, em silncio, cada qual mergulhado nos prprios pensamentos. Ela, na verdade, deixava-se levar pelo embalo da montaria, sentindo o mundo ao redor, respirando em longos haustos, expondo o rosto ao sol, sorrindo diante do susto de uma rs surpreendida pela presena inesperada dos dois cavaleiros. Ele a contemplava disfaradamente, deixando-se contagiar pela exuberncia daquela alegria juvenil, sentindo um fluxo quente e revitalizador correndo-lhe pelas veias como h muito no acontecia. 
    Retirando o cantil amarrado  sela, Callaghan tomou um longo gole de gua e emparelhou seu cavalo com o de Tess. 
     Quer?  perguntou, gentilmente. 
    Ela aceitou e bebeu, sfrega 
    - Obrigada  agradeceu, devolvendo o cantil.  estava sedenta. Falta muito para chegarmos at os cavalos?
     No. O pasto fica depois daquela colina.  Ele apontou a suave elevao coberta por velhos e frondosos carvalho 
 Como  grande esta fazenda...  Tess comentou. 
        Voc precisava conhecer a de Montana. Aquela sim, pode-se chamar de grande  disse Callaghan, com certo orgulho. E mudou de assunto  Como est sua perna? 
    -Bem. Pensei que o esforo de cavalgar pudesse me causar alguma dor. Mas, at agora, nenhum sinal. 
    Os olhos negros de Callaghan estavam fixos em algum lugar  direita de Tess. Sua expresso era alerta, combativa Ela voltou-se naquela direo e viu um cavaleiro se aproximando a galope. . . 
     Quem ?  Tess perguntou. 
    - No sei.  Ele ergueu-se na sela, firmando os ps no estribo. E ento sua expresso relaxou-se. - Ah, trata-se de um vaqueiro novato, contratado por Ted, nosso capataz. Por isso no o reconheci, de longe; 
    Ambos puxaram as rdeas, para que os animais parassem.E aguardaram a chegada do cavaleiro. 
    Ele monta bem Tess comentou; 
    E a sua profisso. callaghan retrucou, num tom subitamente frio.
    Com habilidade, o novato deteve a carreira de seu cavalo fazendo-o mudar a andadura. E aproximou-se com um largo sorriso tirando o chapu . 
     Boa tarde, patro. Boa tarde, senhorita. 
     Boa tarde, Marley  disse Callaghan.  O que o traz aqui? 
     Um recado de Ted. 
    O vaqueiro se dirigia a Callaghan, mas seus olhos azuis estavam fixos em Tess. Era um rapaz ainda muito jovem, de nariz arrebitado e um sorriso cativante, ela notou, sem muito interesse. 
     E ento?  Callaghan indagou.  O que voc estava dizendo?  Ah, sim...  Marley parecia simplesmente fascinado, por Tess.  Ele mandou dizer ao senhor que os cavalos esto no pasto trinta e sete, mais ao sul. E que se quiser tomar um caf recm-coado  s aparecer l no alojamento. 
     Diga a Ted que agradeo a informao. Mas o caf ficar para outro dia. 
    O vaqueiro sacudia a cabea, em sinal de concordncia. Mas sua ateno continuava inteiramente voltada para Tess. 
Era evidente, a Callaghan, que Marley s no se atrevia a dirigir-se a Tess por uma questo de respeito, da velha tica que vigorava entre os homens daquela regio: se uma mulher estava acompanhada por um homem honrado, ento deveria ser tratada de maneira polida, mas distante.     Uma sensao mista, de possessividade e cime, ergueu-se lentamente no ntimo de Callaghan, deixando-o surpreso e confuso. 
    Sem a menor noo do que se passava na mente do poderoso chefe da famlia Hart, o jovem vaqueiro no se decidia a partir. 
      Mais alguma coisa, Marley?  Callaghan perguntou, por fim. 
     Como? No, senhor. E s isso, mesmo. 
     Ento, pode ir. 
      Ah.... Sim, claro. At logo, sr. Hart . At mais ver, senhorita... 
     Tess Brady - . ela se apresentou. -  um imenso prazer conhec-lo, Marley. 
    O rapaz corou de satisfao, em seu rosto se abria num largo sorriso Colocando o chapu na cabea, disparou pelo campo afora.  
     Por que fez isso? 
    A pergunta de Callaghan pegou Tess de surpresa. Voltando-se, ela fixou nele os olhos verdes, inocentes como os de uma criana. 
     Isso o qu? 
     Por que deu seu nome ao vaqueiro?. 
     Senti vontade. Fiz mal? 
    Ele sorriu. A ingenuidade de Tess era tocante. 
     No reparou que Marley estava fascinado por voc? 
     Por mim? 
    -No...  Callaghan respondeu, irnico  pela Estrela.  E apontou para a gua que Tess montava. 
     Ora, assim voc me confunde  ela reclamou, aborrecida. Callaghan riu alto, inclinando a cabea para trs. Agora era Tess quem estava fascinada. Ver aquele homem sorrindo era uma raridade que valia a pena, ela pensou comovida. O riso de Callaghan certamente vinha de dentro do corao, fazendo-o parecer incrivelmente jovem.., e muito prximo. Diante dessa constatao, Tess estremeceu. 
     Voc est zombando de mim  protestou, ainda. 
    Quando o riso cessou, havia no olhar de Callaghan um brilho at ento desconhecido a Tess. Era como se uma parte dele, que viera  tona com a risada, tivesse permanecido em seu olhar. 
     Voc nunca namorou a srio, Tess? -- perguntou, sbito. 
     No  ela confessou, embaraada.  Mas a culpa no  minha. 
     Como assim?  Callaghan agora falava baixinho, como se temesse assust-la, com aquele assunto delicado. E havia  uma ternura, indisfarvel, em seu tom de voz. 
     Todos os rapazes acham que quando uma garota aceita sair  porque est disposta a...  ela hesitou, antes de  concluir. - a maiores intimidades. 
     Talvez fosse uma questo de avis-los, antes. 
     J tentei, mas foi intil. Certo dia, um rapaz me convidou para sair. Conversei sobre isso com ele e, a princpio parecia tudo bem... Fomos jantar e. ele comeou a beber demais... - 
    Tess falava num tom severo e Callaghan mantinha-se neutro, ouvindo e conhecendo um pouco mais do mundo daquela jovem mulher, bela, encantadora, inteligente e incrivelmente sbia, para sua pouca idade.. 
     Quase que a estria terminou em tragdia  Tess prosseguia.  Na volta para casa, ele tentou me forar e eu o agredi com uma chave inglesa que estava no porta-luvas da caminhonete. Foi um horror. 
     Quantos anos voc tinha? 
     Dezesseis. 
     Infelizmente isso acontece com muita freqncia  Callaghan comentou.  E o cretino, o que fez depois que voc reagiu? 
     Deu queixa  polcia. 
     Ele teve essa coragem? 
     Mais do que isso. Inventou uma estria absurda:  disse que eu tinha lhe pedido uma carona e tentado assalt-lo. S no fui presa porque contei  a verdadeira verso dos fatos. O delegado nos confrontou e acabou acreditando em mim. 
     Seu pai no tomou nenhuma providncia? 
     Ele nem ficou sabendo do caso. Seria capaz de matar 
o sujeito. 
    Agora ambos subiam uma colina, protegidos do sol pela sombra de velhos carvalhos. 
      Voc teve azar  disse Callaghan.  Nem todos os rapazes agem assim. 
     As variantes so muitas, mas apontam sempre para o mesmo lado.  De repente, Tess armou-se de coragem para confessar algo que sentia havia muito tempo.  Sabe de uma coisa, Callaghan... 
     Sim? 
     Acho que sou diferente. 
     Diferente... como? 
     Fria. 
     Frgida  ele a corrigiu, tomado pelo espanto.  Foi isso o que voc quis dizer? 
     Exato. 
     Mas por que voc pensa assim? 
     Porque nunca sentia nada, quando um rapaz me tocava. Alis, sentia-me muito mal, como se eles soubessem um jogo que eu ignorava. Cheguei a fazer pesquisas sobre esse assunto. Li artigos que falavam sobre as sensaes que as mulheres tm, em companhia dos homens. Mas isso jamais ocorreu comigo. Voc no acha estranho? 
    Ora, voc acabou de completar vinte e dois anos. Talvez no tenha encontrado o homem certo. 
     Do jeito que levo minha vida, nunca o encontrarei. E, para ser franca, no estou fazendo muita questo. 
    - Mas voc no tem sonhos romnticos, tais como construir um lar, formar uma famlia, gerar filhos? 
     claro que toda mulher acalenta esse desejo. Nesse ponto, no sou diferente da maioria. Mas h algo que gostaria ainda mais do que tudo isso. 
     Conte. 
    - Voltar a estudar. 
    - E que curso voc faria? 
  Botnica. Adoro plantas, sobretudo as rosas. Gostaria de conhece-las profundamente, de estudar tcnicas de cultivo, enfim,.. de me tomar uma expert no assunto. 
    - As flores so, de fato, muito lindas. 
     Sim. Mas eu lidaria apenas com rosas. 
     E por que rosas? 
     No sei. Nunca me questionei a respeito.  Tess riu. -- Estamos falando de sonhos, lembra-se? 
    - Sonhos s vezes se tornam realidade. 
     No no meu caso.- 
     Por que diz isso, Tess? 
     Porque me parece to remota a possibilidade realiz-los...  
    - No se pode perder a esperana. 
      verdade:  De sbito, Tess reparou num grupo de cavalos, a curta distncia Olhe, callaghan!  exclamou apontando-os.  No so os quarto-de-milha recm-chegados  fazenda? 
    - No, aqueles so rabes. Os quarto de milha esto em outro pasto, mais adiante. 
    Mal posso esperar para v-los. -  Ambos desceram pela trilha; at o outro lado da colina. 
    -L esto elesCallaghan anunciou. Veja que grupo magnfico. 
    Tess desmontou, amarrando Estrela ao tronco de uma rvore baixa. Lentamente aproximou-se da cerca que  separava a colina do pasto. Um macho  imponente aparentemente o lder do grupo, ergueu a cabea, as orelhas em p atento  aproximao de Tess e Callaghan, 
    Tess estalou a lngua; produzindo um som que aprendera  com o pai, desde menina. Era uma tcnica para acalmar animais, que nunca falhava. Movimentando-se em cmara lenta, ela conseguiu chegar bem perto da cerca, sem assust-los. 
    Callaghan havia ficado para trs e observava, encantado, o jogo de Tess com os animais. A cena era digna de registro, ele concluiu, arrependido por no ter trazido uma cmara fotogrfica. 
    Tess parecia no dar-se conta da presena de Callaghan s suas costas. Estava como que hipnotizada, os olhos fixos nos do lder do grupo. Lentamente, transps a cerca e se aproximou do animal, estendendo a mo. 
    O garanho recuou uns poucos passos, mas estacou em seguida. Parecia indeciso entre o instinto de proteo ao grupo, a curiosidade, e o estranho poder que emanava de Tess, que se aproximava cada vez mais. 
    Com a respirao suspensa, callaghan presenciava a cena surpreendente. E mal pde conter uma exclamao de puro fascnio ao ver o grande garanho deixar-se acariciar no pescoo por um ser humano desconhecido, a quem poderia derrubar com um mnimo, movimento. O perigo era real, quase palpvel-.... S- no era maior do que a sensao de puro deslumbre que invadia Callaghan. 
    A refrescante brisa que corria entre as rvores aumentou de intensidade, fazendo estalar um ramo na copa mais alta. 
    O rudo foi suficiente para quebrar o frgil encanto que mantinha em equilbrio dois seres to distintos... Num movimento brusco o garanho empinou, alando as patas dianteiras para o ar.  Mas Tesa, que estava absolutamente atenta, saltou para o lado com a preciso de um felino, evitando o perigo. Relinchando, o garanho disparou, ferindo o cho com as patas, numa manifestao de fora e independncia. O grupo o seguiu. O garanho parou  meia distncia, cercado pelos outros animais. Tess riu, deliciada, as mos na cintura, o rosto erguido numa postura altiva, os olhos brilhantes de satisfao. 
     Voc viu?-  ela indagou, com a voz carregada de alegria, voltando-se para Callaghan.  Ele no  maravilhoso?  Num movimento cheio de graa e preciso, transps a cerca e correu para perto de Callaghan. 
    Estava incrivelmente bela, ele constatou, encantado. Seguindo apenas um impulso interior, sem pensar nas conseqncias, tomou-a nos braos e beijou-a. 
    A surpresa de Tess imobilizou-a, o suficiente para que callaghan passasse do beijo leve e terno ao campo mais sensual e profundo. S ento ela deu-se conta do que acontecia. 
     O que est fazendo?  conseguiu dizer, enquanto recuava 
     Beijando-a  ele respondeu, simplesmente.  Talvez agora voc consiga compreender que no  frgida, nem indiferente aos homens. 
     Voc me pegou desprevenida. 
     Isto no  desculpa. Voc correspondeu a meu beijo
 ele provocou-a, com um sorriso que era a um s tempo doce e maroto. 
     Mentira. Eu no fiz nada. 
     Seu corao diz o contrrio. Acho que voc gostou. 
    Furiosa por sentir-se encurralada, desnudada em suas prprias emoes, Tess reagiu com agressividade: 
     Voc  louco. Bem que haviam me avisado. 
    Callaghan riu, meneando a cabea. 
      No adianta, tentar mentir para voc mesma, Tess
Brady. Sua conversa sobre insensibilidade aos homens apenas  fruto da falta de experincia. Voc conheceu meia dzia de pees que no sabiam distinguir uma mulher de uma novilha e acha que pode generalizar os fatos. 
     Por que est fazendo isto comigo?  Os olhos verde de Tess estavam marejados de lgrimas.  Por que quer me ferir? 
    - No foi essa minha inteno  ele declarou, j arrependido por haver perdido o controle das emoes.  Agi por impulso. Mas disse exatamente o que penso. 
     timo  ela ironizou, amargamente.  E assim conseguiu estragar nosso lindo passeio. O que h de errado com voc, Callaghan Hart? No sabe estar feliz por mais de alguns minutos seguidos? 
     Sinto muito inform-la de que a felicidade no existe. Papai Noel tambm no. 
     Sei muito bem do que voc est falando. Minha infncia  e juventude no foram exatamente um mar de rosas. Entretanto, no saio por a destilando fel por todos os poros
    O rosto de Callaghan tornou-se sombrio. - Voc acha que sou assim? 
     No. Acho que voc est assim. E no faz nem um pouco de fora para mudar. Parece que desistiu de algo sem o qual no se pode viver. 
     E o que seria esse algo? A f na vida, talvez? 
     Talvez  ela repetiu, caminhando em direo  gua que havia deixado amarrada junto a uma rvore. Soltou-a e montou-a com agilidade. 
     Aonde voc vai?  Callaghan perguntou. 
     Para casa. 
     Vou com voc. Afinal, viemos juntos 
     Agradeo, mas prefiro ir s. Quero pensar. 
     Faa como achar melhor  ele disse, aborrecido. 
    Tess no respondeu. Instigando a montaria, partiu sem olhar para trs. 
    Sozinho, no meio da tarde, Callaghan perguntou-se porque provocara aquele impasse desagradvel, beijando Tess.    Sabia da enorme diferena de idade entre eles e  mesmo assim, deixara-se levar por aquele estpido impulso. A solido em que vivia era sem dvida um fator importante de desequilbrio em sua estrutura emocional. Mas como reagir a ela, se as pessoas no lhe importavam, se cada novo conhecimento s resultava em tdio e indiferena? 
    As viagens freqentes que fazia pelo pas haviam lhe dado oportunidade de conhecer muitas mulheres, algumas at interessantes. Mas sempre que se envolvia com alguma acabava se aborrecendo. A seqncia do jogo amoroso revelava o egosmo, o interesse, a falta de humanidade e imaginao, a pobreza espiritual irremedivel de mulheres que se ofereciam como frutos maduros  beira da estrada. Onde se escondiam as que valiam mesmo a pena? Essa pergunta ele se fizera muitas vezes, at que decidira desistir das conquistas, esquivar-se dos assdios. 
    Essa atitude acarretara solido e um princpio de cinismo. Agora, surgia Tess, com sua beleza de anjo, sua falta total de experincia no campo afetivo, sua pureza de alma. 
Desde o primeiro dia que a vira sentada na cerca do curral, olhando o pai lidar com os novilhos, Callaghan soubera, intuitivamente, que ela era especial... E isso significava uma encrenca das boas, como os vaqueiros costumavam dizer. 
Tess despertara-lhe emoes que ele h muito decidiu enterrar para sempre... 
    Mas a despeito de tudo isso Callaghan sentira o pulsar diferente nas veias, um leve arrepio, a vontade se aproximar e dizer coisas agradveis. Fugira ao contato evitando ao mximo a presena de Tess. 
    A vida quisera diferente, pois a morte de Ray Brady, que trabalhava na fazenda, deixara-a em total desamparo. 
    Callaghan, tal como os outros membros da famlia Hart sentira-se na obrigao de acolh-la. No havia nenhuma outra atitude a tomar. 
     entrada de Tess em seu lar, como governanta, deixara-o inquieto. A presena constante daquela mulher jovem e encantadora seria um problema... Callaghan, porm, jurou fazer o  possvel para manter-se a uma distncia prudente. 
   A princpio, seu plano dera certo.. Mas logo as circunstncias haviam lhe mostrado o quanto ele havia se enganado. Sua maneira de colocar-se distante causara um terrvel mal entendido a ponto de Tess pensar que ele a detestava, a queria fora da propriedade e da famlia Hart. 
    No dia de seu aniversrio, ao ver o bolo que Tess preparara, Callaghan emocionara-se de tal maneira que o ato de atir-lo na parede nada mais fora do que uma confisso de sua fragilidade diante de um gesto comovente... Sua desistncia.   O que viera depois, at aquele beijo desastrado, eram apenas as previsveis conseqncias da sua frustrada tentativa de fugir... Fugir da beleza e do encanto de Tess Brady. 
    Atirando o chapu para trs, com impacincia, ele disse a si mesmo: 
     Quero ver como voc vai sair dessa enrascada, Callaghan Hart. 
    Tess experimentava a vertigem da velocidade cavalgando a gua Estrela. O animal era realmente magnfico, obedecendo a cada ordem dada atravs das rdeas com uma presteza absoluta. Tess no queria pensar no que havia se passado pouco antes, na colina. No agora, que o vento brincava em seus cabelos e o rufar compassado das patas da gua soava como msica aos ouvidos. Mas a imagem de callaghan estava impressa em sua mente, com uma nitidez cruel. E Tess fechou os olhos com fora, tentando apag-la, sem resultado. Mas era impossvel. Em algum recanto de sua memria, ou de seu corao, l estava Callaghan, sorrindo, inclinando a cabea para trs, os olhos negros quase fechados, os dentes alvos brilhando  luz do sol, filtrada pelas folhas dos carvalhos centenrios.
     O que est acontecendo comigo, afinal? ela se perguntou, em voz bem alta.  Ser que enlouqueci? 
    Tocada por um sentimento que no compreendia, Tess se debatia inutilmente, sem encontrar refgio nem paz. Nada do que vivera a havia preparado para aquilo que a magoava tanto. 
    De repente, percebeu que no estava sozinha. Algum se aproximava. Seria Callaghan?, ela se perguntou, estremecendo, invadida por uma sensao que era a um s tempo medo e fascnio. 
    Voltando-se, deparou com Marley, o vaqueiro novato, que tentava emparelhar sua montaria com a dela. 
     O que aconteceu?  ele indagou.  Onde est o sr. Callaghan Hart?  
     Na colina. Mas no h nada de errado com ele, Marley; fique tranqilo. 
    O vaqueiro, porm, no parecia satisfeito com a explicao. E mantinha  seu cavalo na mesma velocidade que o animal de Tess. 
    Marley tem razes para ficar preocupado, ela concluiu, de sbito. Afinal, ele nos encontrou, ainda h pouco, juntos. E agora aqui estou eu, cavalgando sozinha em direo  sede da fazenda... Isso sem dvida parece estranho. 
    Puxando aos poucos as rdeas, Tess fez com que a gua diminusse a velocidade. Certamente devia uma explicao ao jovem vaqueiro, ela concluiu. 
    Mas o que diria a ele? Que Callaghan a tinha beijado e que ela fugira como uma louca? Seria muito engraado ver a expresso de espanto naquele rosto jovem e puro, onde a vida ainda no coloca suas marcas, Tess pensou com amargura. 
    Tanto quanto ela, Marley era jovem, provavelmente cheio de sonhos e desejos de realiz-los. Essa compreenso a fez sentir simpatia pelo rapaz, que continuava a manter sua montaria emparelhada  dela. 
    Num dado momento, Marley comentou a beleza da paisagem. Tess concordou, com um gesto de cabea. Pouco depois, ambos entabulavam uma conversa leve, sobre cavalos, plantas e as vantagens de se viver em estreito contato com a natureza. Assim, fizeram o resto do caminho at a sede da fazenda. 
    No fundo, Tess ainda se sentia confusa e triste, com relao a Callaghan e a seu prprio corao. Mas o fato era que a companhia de Marley a havia ajudado a vencer momento de puro desespero. 
    A primavera cedia lugar ao vero e Callaghan no voltara a procurar Tess. A vida na fazenda seguia a rotina das estaes que se sucediam, cada qual exigindo tarefas diferentes. O feno e outros tipos de gramneas haviam sido plantados na primavera e cresciam com vigor. Viria agora a colheita, que consistiria em vrias etapas de trabalho: ceifar, empilhar, secar e prensar o alimento que sustentaria o gado durante os rduos meses de inverno, quando a neve voltaria a cobrir as pastagens. 
    Tess continuava trabalhando no escritrio da manso dos Hart, com muita dedicao e afinco. No final do dia, porm, apesar de cansada, no conseguia relaxar e, muito menos, dormir. 
    Comeava a sofrer de insnia, isso jamais lhe acontecera antes. Uma terrvel inquietao a impedia de conciliar o sono. Rolando na cama durante horas a fio, sentia-se invadida por uma angstia sem fim. O beijo trocado com Callaghan, na colina, desencadeara todo aquele processo, Tess acabara concluindo, depois de muito refletir. A recordao daqueles momentos arrebatadores simplesmente no a deixava em paz. Voltava-lhe  mente a todo instante, causando-lhe transtorno e embaraos, tal como ficar imvel no meio da cozinha, alheia ao movimento em torno, ou boquiaberta diante da tela do computador, ausente da realidade. 
    A presena de Callaghan, que antes a alegrava, tornara-se uma grande provao, pois ele despertava-lhe emoes to desconhecidas quanto assustadoras... 
    Assim, Tess comeou a usar artifcios para evit-lo. Muitas vezes usava pretextos para almoar mais cedo ou mais tarde do que todos. E desse modo conseguia fugir do contato com Callaghan e os outros Hart, que sempre a convidavam, tal como  sra. Lewis, para sentar-se  mesa de refeies. 
    Quando Callaghan aparecia no escritrio, para falar com Leopold sobre assuntos relativos ao trabalho na fazenda, Tess pedia licena e ia ao toalete. E se Callaghan se demorasse mais tempo, ela fugia para a cozinha, a fim de tomar um caf ou uma xcara de ch na companhia da sra. Lewis. 
    Como recurso final, Tess passou a recolher-se cedo e levantar-se mais tarde. Afinal, quando no estava viajando a negcios, Callaghan saa logo aps o caf, para percorrer os pastos e os campos cultivados. E s voltava para casa  hora do almoo. Assim, Tess garantia-se contra a presena perturbadora daquele homem, por toda a manh. 
    Aquele comportamento estranho acabou por chamar a ateno de todos, na casa. Mas se Leopold, Reynard e a sra. Lewis decidiram Ignorar o fato, o mesmo no se deu com Callaghan. Embora no demonstrasse, sentia-se pessoalmente ofendido com a atitude de Tess 
    Numa tarde bem quente em que Tess estava sozinha no escritrio a sra Lewis fez-lhe um pedido 
    - Voc poderia levar o lanche para os rapazes? Eu sempre cuido disso mas acontece que atrasei para preparar o jantar. 
     Claro, querida. tess respondeu, solcita.  Ser um prazer caminhar um pouco nessa tarde linda. 
    isso no vai prejudicar seu trabalho? 
    - Fique sossegada. Tenho que digitar alguns documentos, mas poderei faz-lo mais tarde, sem nenhum problema. 
     timo. -- A sra. Lewis sorriu, enquanto lhe estendia uma cesta, contendo trs pequenas garrafas trmicas e pedaos de bolo embrulhados em guardanapos de papel.  Bem, aqui est. Preparei ch gelado e bolo de laranja. Os rapazes devm estar com fome e, sobretudo, sedentos, com esse sol inclemente. 
    Os rapazes, aos quais a sra. Lewis se referia, eram Callaghan, Leopold e Reynard, que estavam ceifando e empilhando o feno nas proximidades da casa. 
    Tess pensou em trocar o leve vestido-de algodo que usava, bem como as sandlias de tirinhas, por uma roupa mais apropriada. Mas como no pretendia se demorar, resolveu ir como estava. 
    Tomando a cesta no brao, partiu, feliz com a novidade que viera interromper a seqncia do trabalho que por vezes chegava a ser cansativo. Tinha um plano muito simples para evitar um encontro com Callaghan: deixaria o lanche com Leopold e, alegando pressa, voltaria para o escritrio. 
    S que as coisas no ocorreram assim. Quem estava mais  prximo da casa era Reynard, que acenou para Tess do alto  de uma grande ceifeira. Em seguida desligou o motor e  saltou para o cho. 
     Ol, Tesa. O que voc traz, a nessa cesta? - 
     Ch gelado e bolo de laranja. Foi a sra. Lewis que preparou. 
     timo.  Reynard sorriu.  Chegou em boa hora. O calor est terrvel. 
    Tess j ia entregar-lhe a cesta e partir, quando Reynard anunciou: 
      Olhe, Leopold est vindo para c. Deve estar com sede, tambm.  Com sua simpatia habitual, Reynard indagou: 
     Escute, Tess, ser que voc nos faria um favor? 
     Claro  ela assentiu, sorrindo.  E s pedir... 
     Leve o lanche para Callaghan. Ele est l atrs do celeiro, sabe? Do jeito que  metdico, no vai parar o trabalho para se juntar a ns. 
    No havia como fugir da situao, Tess concluiu, ocultando seu desagrado. Tomando nas mos uma pequena garrafa trmica e dois pedaos de bolo, caminhou na direo indicada por Reynard. 
     Olhe bem onde pisa  Reynard recomendou.  As mquinas costumam desalojar os animais, deixando-os irritados e agressivos. 
    Ela aquiesceu com um gesto de cabea, enquanto acenava para Leopold, que se aproximava. 
    Tess caminhou por alguns minutos, at o celeiro. Contornou-o e ento avistou Callaghan, que manobrava uma ceifeira. 
    Tess caminhou em sua direo, sentindo a pulsao aumentar  medida que se aproximava. O cheiro forte da erva recm-cortada confundia os sentidos. E o calor do sol, sobre a cabea descoberta; era quase insuportvel. 
    Tess parou a alguns metros de distncia da ruidosa mquina. E ficou esperando, por um bom tempo, que Callaghan a desligasse. 
    Como se no tivesse notado a presena de Tess, ele seguiu a linha que ceifava, at o final. Fez a manobra e voltou ao ponto onde tess se encontrava esttica, esperando-o. 
    As palavras mal-humoradas que Callaghan proferiu, ao saltar para pisar o solo, deram a Tess uma amostra do que a aguardava: 
     Isso  roupa de andar no campo? 
    - Eu estava trabalhando no escritrio, quando a sra. Lewis pediu- me para trazer o lanche  ela explicou, em um tom firme.  No achei necessrio trocar de roupa, j que pretendo voltar imediatamente.  E estendeu- lhe a garrafa trmica e os pedaos de bolo, envoltos em guardanapos de papel. Em seguida, comeou a se afastar. 
     Espere  disse Callaghan, de sbito.  Por que essa pressa toda? - 
    - Como j lhe disse estou em meio  um trabalho importante ela mentiu. 
     Ento por que no deixou meu lanche com Reynard.. ou Leopold? ... . . 
     Era o que pretendia fazer. Mas Reynard pediu-me que o trouxesse para voc. 
      claro  Callaghan comentou, irnico.  De algum tempo para c,  preciso que lhe peam para que voc se aproxime de mim. O que  que est havendo? Tem medo que eu seja inconveniente; ou algo assim? 
     No...  ela respondeu,. enrubescendo. 
    - Ento, o que se passa? 
    Os olhos negros de Callaghan estavam fixos nos de Tess e pareciam querer transpass-la, em busca da verdade. 
     Achei que seria melhor assim  ela respondeu, engolindo em seco. 
     Ah... Voc achou.. Ser que no percebe que todos em casa notaram seu comportamento esquivo comigo?
        Aonde voc quer chegar?  ela indagou.  O que quer de mim? 
 Que, se comporte com naturalidade, ora. Afinal, moramos todos sob o mesmo teto. Do que voc tem medo, afinal? Fale, Tess Brady! 
     Eu... eu...  ela balbuciou, mas no conseguiu formular uma resposta. A presso a que Callaghan a submetia era demais. E Tess saiu correndo, sem olhar para onde ia, as lgrimas escorrendo pelo rosto e uma quase irresistvel vontade de gritar. De repente, ouviu um som de guizos, que conhecia desde a infncia, e estacou, gelada. A poucos passos de distncia, uma cascavel enrodilhada preparava-se para dar o bote. No havia como fugir, Tesa concluiu, no auge do pavor.. 
    Vindo de trs, o lampejo de uma lmina cortou o espao, atingindo a cobra em cheio. Tess quis dizer algo, mas no pde. Dois braos poderosos a envolveram e uma voz suave soou-lhe aos ouvidos. 
     Calma, Tess Brady. No h mais perigo. A cobra est morta. 
    Ela tremia incontrolavelmente, aconchegando-se no peito quente de Callaghan. 
     O susto j passou... Procure se acalmar, sim? 
    A voz de Callaghan soava carregada de ternura. Tess sentia-se protegida de todos os males do mundo, naquele momento... E custava a crer que, momentos antes, Callaghan a tratara de maneira irnica e cruel. 
    Chegou a se perguntar como era possvel existir, dentro do mesmo homem, dois seres to diferentes. Um, sempre mergulhado em si mesmo, seco, spero, autoritrio e amargo. O outro, terno, compreensivo, carinhoso, solidrio... Era mesmo de enlouquecer! 
    Esse pensamento fez com que uma nova torrente de lgrimas assomasse aos olhos de Tess. 
     No  preciso chorar  ele disse, baixinho. O perigo j passou. Eu estou aqui... 
    Ao sentir a vibrao daquela voz no largo peito onde apoiava a cabea, Tess sentiu que o fluxo de lgrimas aumentava. Se ela pudesse, arrancaria do peito daquele homem todas as mgoas ali contidas, havia tanto. tempo. 
    Aflito com o sofrimento da mulher que trazia apertada a peito, Callaghan ergueu-lhe o rosto desfeito em lgrimas, fitou a boca sensual, e curvando-se, beijou-a com sofreguido. 
    Tess sentiu que tudo mudava. Como num passe de mgica, o contato dos lbios de Callaghan contra os seus fazia com que a angstia, o medo e as incertezas alassem vo, como um bando de pssaros assustados, deixando o corao jovem livre de qualquer sofrimento. Era assim que ela queria viver.., para sempre! Foi isso que Tess, pensou, entre confusa e deliciada. 
    Callaghan estava perdendo o controle e sabia disso. Estava cometendo mais um erro para arrepender-se depois. Mas como deter as mos que agora percorriam o corpo jovem de Tess como se tivessem vida prpria? Era preciso parar ele se ordenou, empreendendo um esforo sobre-humano. E por fim conseguiu afast-la de si. 
    - Por qu?  ela indagou, num fio de voz. 
     E melhor que voc v, agora ele respondeu, ofegante. 
    No  ela protestou, com as faces afogueadas.  quero ficar, Callaghan.,. 
     V, Tess. No dificulte as coisas.  Voltando-lhe as costas ele , caminhou em direo a mquina. 
    -Callaghan ---Tess o chamou, num tom que era quase uma splica. 
    Sem se voltar, ele fez um gesto imperativo e prosseguiu seu caminho. Com a sensao de ter perdido uma grande chance de ser feliz e um desnimo enorme pesando-lhe sobre os ombros, Tess tomou a direo da casa, caminhando lentamente. No havia mais lgrimas em seus olhos. S um vazio enorme, avolumando-se em seu peito. 
    Encostado ao estribo da ceifeira, Callaghan a viu afastar-se, como uma sonmbula, por entre o feno abatido. Tess parecia to frgil e desprotegida, ele concluiu, com o corao descompassado. 
    Numa exploso sbita, atirou a garrafa trmica de encontro  mquina. Estava furioso consigo. E considerava uma imperdovel fraqueza o fato de ter perdido o controle, mais uma vez , diante daquela mulher. 
    No era possvel continuar assim, Callaghan constatou, desesperado. Era preciso pr um fim quela triste situao antes que cometesse urna loucura. 
    A inexperincia de Tess no campo afetivo, ele pensou, era a revelao inequvoca de sua virgindade. O modo com que ela havia falado sobre as poucas tentativas de namoro que fizera denunciava esse fato. Mas isso em nada mudava a atrao que sentia por ela. Callaghan constatou, com um profundo suspiro. 
     Ainda h pouco, quando a estreitara contra si, sentira um impulso irresistvel de deit-la sobre o feno cortado e, ali mesmo, sob o forte sol, possu-ia at que se esgotasse o fogo que o consumia. E ele poderia jurar que Tess no tentaria impedi-lo, que se deixaria levar, at a entrega total. 
    Callaghan passou a mo entre os cabelos, num gesto que era a um s tempo desespero e cansao. No havia sada para sua situao, ele constatou, estarrecido. Ou melhor, havia sim.. Mas ele no poderia us-la, por uma questo de honra. Afinal, tinha direito de despedir Tess, a qualquer momento. No havia sugerido a ela que ficasse at o vero? E j era vero... 
    Se ele quisesse, poderia pedir-lhe que se fosse. Mas como explicar essa atitude aos irmos e ao resto da famlia, se Tess nunca dera motivos para a menor queixa? 0 fato era que o cdigo de honra dos Hart o impedia de agir daquela maneira.  E, o que era. mais doloroso de confessar, ele no queria fazer isso. No podia sequer pensar em entreg-la ao mundo,  sua prpria sorte. Entretanto, era preciso tomar uma atitude.
     Mas qual?  ele se perguntou, em voz alta. E voltou ao trabalho, sem sequer tocar no lanche que Tess havia lhe trazido. 
    Porm, quando a noite chegou, Callaghan j sabia exatamente o que fazer. Havia encontrado uma soluo intermediria, mas precisava de um pretexto para coloc-la em ao. 
    Aps o jantar,do qual Tess havia estado ausente, Leopold abordou-o para conversar: - 
     Preciso falar com voc sobre  um assunto delicado. Como est seu tempo? 
     Livre. 
     E seu estado de esprito? 
     Suportvel. 
     Ento, venha. Vamos dar urna volta. No quero que nos interrompam. 
    Ambos saram da casa andando lentamente, sem destino 
algum. Andaram em silncio por algum tempo e por fim 
Leopold indagou: 
     O que aconteceu hoje, entre voc e Tess? 
     Por que quer saber? 
     Por curiosidade e preocupao  Leopold respondeu, simplesmente.  No pude presenciar o que aconteceu, pois estava do outro lado do celeiro. S sei que ela voltou arrasada. Evitou a mim e a Reynard. Parecia ter visto um fantasma. 
    - Ela quase pisou numa cobra  Callaghan argumentou, 
esquivo.  Era natural que estivesse assustada, no acha? 
     E foi s isso que aconteceu? 
   Callaghan olhou para o irmo, perguntando-se o quanto  ele saberia e o quanto apenas imaginava. E optou por uma  resposta franca. 
     No foi apenas isso, Leopold. Mas no pretendo entrar em detalhes, se  que voc me entende. 
     Entendo, sem dvida alguma  o outro retrucou, irnico. Mas peo-lhe que diminua a presso que vem exercendo sobre Tess, ultimamente.  evidente que ela est sofrendo. Emagreceu, anda abatida e triste. E um dia desses a sra. Lewis a ouviu chorando, no quarto. Precisamos fazer alguma coisa. 
     E o que sugere?. 
     No sei. O fato  que ela pensa estar apaixonada por voc. 
      Deu para perceber? 
      Sim. E tambm notei que voc no  exatamente indIferente a esse sentimento. 
     Como voc  perspicaz, meu irmo Callaghan comentou, sarcstico. 
     No  preciso ser um observador sutil, para chegar a essa concluso. Basta ver voc se comportando como King Kong, sempre que ela est por perto. O que h, homem Perdeu o senso do ridculo? 
     Veja l como fala, Leopold.  O tom de voz de Callaghan era perigosamente calmo. 
     Voc  o mais velho, mano. Mostre como deve ser a conversa entre dois homens que se respeitam. 
    Callaghan ficou em silncio por alguns instantes. De sbito riu, divertido. Amava aquele irmo sensvel, o mais brilhante entre todos. Mas s vezes se esquecia de que ele j no era um rapaz, de que estava se tornando um homem maduro, com o passar do tempo. 
     Voc est crescendo, Leopold... J sabe argumentar sem perder a calma. 
     A vida ensina.. 
     At mais do que desejamos, s vezes  Callaghan completou, com certa tristeza. 
     O que voc pretende fazer sobre esse assunto?  Leopold perguntou, fitando-o com severidade. 
    Enlaando o irmo pelos ombros de Leopold, num gesto raro de reconhecimento e afeio, Callaghan disse: 
     Na tarde em cavalgamos juntos, Tess confidenciou-me que seu maior sonho  voltar a estudar. 
     No diga! Leopold surpreendeu-se. 
     Procure conversar com ela sobre o caso  Callaghan recomendou. 
     Farei isso. Voc est disposto a abrir mo da presena de Tess, em nossa casa? 
     No sei se ser preciso. Mas, no momento, um distanciamento entre ns ser benfico a ambos. 
     Compreendo. 
     Faa o que for preciso e, na medida do possvel, mantenha meu nome fora do assunto. 
     Tentarei. 
    Um breve momento se passou. E ento Callaghan perguntou: 
     Mais alguma coisa, Leopold? 
     Na verdade, sim. 
     Diga. 
     E sobre Reynard... 
     O que h de errado com ele? 
     Nada. Mas gostaria que voc compreendesse que Reynard cresceu. 
     Por que diz isso? 
     Porque s vezes voc o trata como se ele fosse ainda um adolescente. 
    Callaghan pensou em protestar, mas calou-se. Afinal, Leopold tinha razo..,. 
    - Eu farei isso  prometeu, retirando o brao dos ombros do irmo. - Boa noite, leopold.  Foi bom falar com voc. 
    - Eu tambm gostei.- E Leopold acrescentou, com ar maroto: - Voc at que no se mostrou to intolervel quanto eu esperava 
    Afastou-se, sorrindo. A conversa tinha sido mais fcil do que imaginara a princpio. Agora tudo o que tinha fazer era aguardar os resultados. O mais incrvel era que havia pensado justamente na possibilidade de Tess voltar a estudar o que a manteria ocupada e distante da casa por um tempo maior. Isso ajudaria a estabelecer uma distncia maior entre ambos. E, portanto, evitaria a possibilidade de ficarem a ss... E de ele perder o controle, novamente.
    Mais de uma semana se passou, at que Leopold encontrasse o momento ideal de falar com Tess. 
    O trabalho no escritrio era intenso, naqueles dias. O novo gerente de vendas da fazenda, contratado havia pouco estava sempre por perto pegurtando sobre tudo, recolhendo informaes necessrias a seu trabalho. 
    Chamava-se, Paul Butter, era jovem, competente, ambicioso e sem escrpulos. Era alto, possua cabelos negros olhos azuis e um sorriso cativante, capaz de encantar a maioria das pessoas. Mas havia um toque de calculismo naquele sorriso. Era como dr Paul Butter  planejasse cada gesto, cada palavra que dizia.  
    - Ele pode ser um bom profissional  dizia Leopold Mas como pessoa... deixa a desejar. 
    De fato, Paul Butter parecia preocupar-se demais com as aparncias, desde o terno de corte perfeitoque usava at o carro reluzente, que parecia ter sado da fbrica naquele momento. 
    enfim, Paul Butter achava-se irresistvel... E no podia admitir que Tess o ignorasse. Como um bom profissional da simpatia, como Leopold o chamava, procurou conquistar Tess de vrias maneiras. Ela, porm, tratava-o de modo polido, mas distante. 
    Inconformado, Paul desdobrava-se para descobrir como agradar aquela mulher jovem, encantadora e sria demais para a pouca idade que possua. 
    No precisou de muito tempo para concluir que Tess era inexperiente, ingnua. carente e esquiva. Ao menor movimento brusco, poderia bater asas como um pssaro assustado... Assim, comeou a cortej-la discretamente, com uma timidez to falsa quanto bem representada. Parecia no ter pressa e nem dvidas sobre o resultado de suas manobras. Era s uma questo de tempo. 
    Certa tarde, antes de partir para uma viagem a Saint Louis, tomou a mo de Tess entre as suas. E sem esperar que ela se refizesse da surpresa provocada por aquele gesto ousado, indagou: 
     Voc no se aborreceria se eu tomasse a liberdade de lhe trazer urna lembrancinha de minha viagem, no  mesmo? 
     Claro que no  ela respondeu, retirando a mo num gesto delicado, mas firme.  Mas por que o senhor faria isso? 
     Por nada.  E Paul Butter exibiu, seu melhor sorriso. 
     Talvez apenas para demonstrar mInha gratido. Afinal, voc tem me ajudado muito, nesta minha fase de adaptao ao emprego. 
     Este  meu trabalho, sr. Butter. 
     Chame-me de Paul. 
     Est bem... Paul. Faa uma boa viagem. 
    Leopold, que assistia  cena, sorriu com ironia. Estava ciente das intenes do novo gerente de vendas com relao a Tess, mas no se achava no direito de interferir. 
No final do expediente daquele dia, achou que a oportunidade para conversar com Tess sobre seus estudos havia chegado: 
     Voc sabe que o Colgio Isnard acaba de abrir vagas para diversos cursos de nvel tcnico, em Jacobsville? 
    No...  ela respondeu, to curiosa quanto surpresa. 
     Recebi este prospecto, pelo correio. Mas parece que os interessados tero de prestar um exame, para provar seus conhecimentos bsicos. Leopold retirou, de uma gaveta, um folheto de propaganda do Isnard e entregou-o a Tess.  Talvez voc se interesse... 
    Com os olhos brilhando de excitao, ela leu a lista dos  
cursos e exclamou: 
     H um curso de Botnica, que oferece especializao em enxertos! Puxa,  exatamente o que eu queria. 
como se falasse consigo, acrescentou:  Ah, se eu pudesse...  
     Eu no sabia que voc se interessava peio assunto... Por que no se inscreve? 
     Ora... No tenho tempo. Afinal, trabalho para vocs. 
     Isso ns poderamos arranjar. Os cursos comeam no outono. At l, o trabalho aqui no escritrio j estar bem organizado. Dai, voc j no precisar se dedicar a ele em tempo integral. 
     Voc acha, mesmo? 
     Acho, no. Tenho certeza. 
    Tess sorria, radiante. Mas de repente assumiu uma expresso sria. 
    No sei, Leopold... O que diro seus irmos? 
     Vamos fazer o seguinte: eu me encarrego de conversa com Callaghan e Reynard. Enquanto isso, voc se informa sobre o curso e o exame de seleo. O prprio Colgio Isnard est vendendo apostilas, para os candidatos. Compre-as e estude nas horas vagas. . Com um sorriso E ele concluiu:  Tudo dar certo, acredite. 
     Por que voc est fazendo isso? 
    Havia suspeita na voz de Tess. E Leopold teve que se esforar para dar uma resposta honesta, sem quebrar o sigilo prometido a Callaghan: 
    -Voc tem muita facilidade para aprender, Tess. Vi o quanto se desenvolveu em informtica, a partir dos manuais  que tnhamos aqui e do trabalho prtico. 
     De fato, aprendi bastante  ela concordou, lisonjeada 
    - Alm do mais, sou a favor de que as pessoas desenvolvam  seus talentos. 
    Tess estava quase inteiramente convencida. O desejo  de estudar era mais forte que o receio de ser incorreta  com a famlia que a abrigava. Foi ento que lembrou-se da conversa com Callaghan, sobre a possibilidade de deixar a casa no vero. Uma grande sensao de desnimo abateu-se sobre ela. 
     Voc disse que os cursos comearo no outono?  perguntou a Leopold. 
     Sim. E isso que diz o prospecto. 
     No sei se ainda estarei aqui, nessa poca. 
     Ora, que bobagem. Por mim, voc continuar conosco pelo tempo que quiser. 
     Acontece que tive uma conversa com Callaghan... 
     Sobre o qu? 
     Sobre partir, neste vero. 
    Leopold fitou-a com o carinho, antes de afirmar: 
     Voc precisa entender, de uma vez por todas, que faz parte de nossa famlia. Ns a queremos muito bem, Tess. 
Ela sorriu, presa de uma forte emoo, ao ouvir aquelas palavras simples e sinceras: 
     Eu sei, Leopold. E sou inteiramente grata a vocs, por isso. Mas tm acontecido alguns choques entre Callaghan e eu que... 
     Ele tem um gnio terrvel  Leopold a interrompeu.  E voc sabe disso to bem quanto eu. Agora, levante essa cabea e v cuidar de seus interesses. Eu me encarrego de acertar tudo com a famlia. 
     Obrigada  Tess comoveu-se, uma vez mais  Voc no pode imaginar o quanto estudar  importante para mim. 
      Ai  que voc se engana. Posso, sim.  E saiu, enquanto Tess voltava a ler o prospecto. 
    Naquela noite Leopold foi at o quarto de Callaghan. No era costume, entre os Hart,  invadir a privacidade um do outro. Mas a situao assim exigia. 
     Est tudo certo, mano  anunciou, ao entrar.  Entreguei a Tess os prospectos do Colgio Isnard. Ela se agarrou  oportunidade como um nufrago ao colete salva-vidas. 
     Entretanto, voc no parece muito satisfeito. 
     Detesto faltar com a verdade... Principalmente com pessoas como Tess. Sinto-me desleal, sabe? 
 Ora, voc agiu assim por uma boa causa. E para o bem de todos, voc sabe. 
     Ser mesmo? 
    As palavras de Leopold irritaram Callaghan, que reagiu: 
     Qual  o problema, rapaz? Fale de uma vez o que est pensando. 
     Acho que essa medida  apenas um paliativo com relao  seu problema com Tess. Ser que vai dar certo? 
E por quanto tempo? 
    - Isso eu no sei, pois no posso prever o futuro. Mas, afinal, temos de resolver os problemas  medida em que vo aparecendo.. Qualquer soluo radical, com respeito a Tess, implicaria em conseqncias imprevisveis, possivelmente dolorosas. 
     Mas empurrar o problema para a frente pode trazer desdobramentos Inesperados  tambm dolorosos. 
    - Do que voc est falando, afinal? 
    - Tesa  uma mulher atraente, com muito encanto... 
    E dai? 
    - Dai que ela vai estudar e, portanto, ter contato com 
outras pessoas. 
     Pare com essas obviedades e diga a que ponto quer chegar. 
    A possibilidade de ela encontrar outro homem que a atraia tanto ou mais que voc  Leopold respondeu, de um s flego.  J pensou nessa questo, mano? 
    - Lgico. E me parece natural que assim ocorra. 
     E voc ficar bem, se... 
     Droga, eu no sei! . Callaghan o interrompeu, com a voz alterada pela exasperao.  O que voc quer que eu faa com Tess? Que a leve para a cama e a transforme em minha amante? 
    Leopold fitou-o com severidade, antes de afirmar 
     Eu o conheo o suficiente para saber que voc s iria para a cama com uma mulher se ela significasse muito... 
     Exato. E, se quer mesmo saber, Tess mexe comigo de um modo bastante profundo. S que no posso agir com ela como o faria com qualquer mulher que me atrasse. 
     Por qu? 
     Ora, que pergunta mais imbecil!  Callaghan estava  beira da exploso.  Tess  quase uma menina, Leopold! 
     Ento, por que no se casa com ela? 
     Pelo mesmo motivo que acabei de alegar.  E callaghan repetiu, como se para si:  Ela  quase uma menina... 
     Tess tem vinte e dois anos. Nessa idade, muitas mulheres j so mes. 
      Pois eu tenho trinta e oito... E no estou falando s de idade cronolgica. Sou experiente, j passei por muitas amarguras. E em contrapartida, lhe pergunto: o que Tesa sabe da vida? 
     O que toda mulher traz dentro de si, sem precisar que ningum lhe ensine.  Com uma ousadia que no lhe era habitual, Leopold questionou-o:  Por que voc tem tanto medo de envolver-se com Tess? 
     No s trata de medo, mas de conscincia, homem! 
 Callaghan respondeu, com um suspiro. 
     Se voc realmente gosta de Tess, e tudo indica que sim, poder transpor as barreiras da idade e da distncia que existe entre vocs. 
     Ora, no me aborrea  Callaghan resmungou. 
     Oua o que estou lhe dizendo, mano. Se voc no se decidir por Tess, outro o far. 
     O que voc est insinuando?  Callaghan indagou, intrigado. 
     Estou apenas dizendo a verdade. Paul Butter, nosso  novo gerente de vendas, parece decidido a conquistar Tess.  E no sei por quanto tempo ela se manter indiferente.  Leopold caminhou at a porta. E antes de sair, recomendou: 
 Pense bem, mano. Depois, poder ser tarde. 
    Callaghan no conseguia deixar de pensar nas palavras de Leopold, a respeito de Tess. 
Se voc realmente gosta de Tess, e tudo indica que sim, poder transpor as barreiras da idade e da distncia que  existe entre vocs. 
    Seria mesmo possvel., callaghan se perguntava, nos dias que se seguiram.  De qualquer forma, Leopold havia acertado em cheio com relao a Paul Butter. Foi isso que Callaghan comprovou, certa manh, ao entrar no escritrio e deparar com o novo gerente cortejando Tess. Teve de fazer um intenso esforo para no interferir. Pouco antes do almoo, aproveitando uma oportunidade, chamou Leopold para conversar. Falou- lhe sobre a indignao que havia sentido, mas no ousou confessar um sentimento de cime... E surpreendeu-se com a reao de Leopold: 
    - No sei por que todo esse espanto, Callaghan. O modo rspido com que voc vem tratando Tess, ultimamente, faz dela uma presa fcil para os conquistadores de planto. : 
     Ento a culpa  minha?  Callaghan retrucou, entre irnico e irritado. 
     No se trata de culpa e sim de entender o que est  acontecendo. Tess  louca por voc, como todos sabem. Voc a rejeita. Vem Paul Butter com seu charme e lhe d ateno, diz tudo que uma mulher carente quer ouvir... E o resultado  to simples quanto previsvel: os dois acabam de marcar um encontro para o fim de semana. 
    - Como voc soube? 
     Aconteceu no escritrio, na minha frente. Ou voc acha que ando bisbilhotando atrs das portas? 
    Callaghan caminhava de um lado da varanda da frente, onde ambos conversavam. Estava contrariado e demonstrava sua inquietao pisando com fora as largas tbuas de carvalho. 
     O que acha de Paul Butter?  perguntou, de sbito.     Leopold franziu a testa, mas nada respondeu. Ao fim de alguns momentos, Callaghan insistiu:  Fale de uma vez; rapaz. 
     Estou pensando em tudo o que eu poderia dizer sobre nosso novo gerente. Considero-o um bom profissional, mas no simpatizo com ele. 
     Por qu? 
     No sei... H algo em Paul que me desagrada: um imediatismo oportunista, uma vontade de parecer maior do que na verdade . Ele parece um menino mimado s avessas, cuidando mais das aparncias do que do interior. No fundo, talvez fosse apenas mais um desiludido que, por no ter foras para encarar e entender a dura realidade do mundo, trapaceia a todos e principalmente a si mesmo.  Leopold fez uma pausa.  Mas esta.  uma opinio muito pessoal, mano, e eu bem posso estar enganado. Talvez eu devesse dizer, penas, que Paul tem senso de oportunidade. Disso, no resta dvida. Ele trouxe um ursinho de pelcia de Saint Louis para Tess. E ela, naturalmente, adorou. 
     Quem, no mundo, se lembraria de fazer uma coisa assim?  Callaghan murmurou, por entre os dentes. 
     Paul Butter,  claro. 
    E suponho que Tess tenha tanto direito de aceitar um convite para sair, como Paul Butter o tem de convid-la. 
     Sim. Mas voc bem poderia intervir na situao. Entre um convite seu e um de Paul Butter, Tess no hesitaria em optar... 
     Acontece que no vou me envolver nessa disputa. 
     No?  Havia surpresa na voz de Leopold. 
 Por enquanto, no. S espero que Paul Butter tenha o bom senso de saber onde est se metendo e com quem. 
     Quer que eu o avise? 
     No. Ele ter chance de mostrar seu verdadeiro carter.     A sra. Lewis veio cham-los para o almoo, colocando um ponte final na conversa. 
 A semana passou depressa para Tess, envolvida no trabalho do escritrio e no estudo das apostilas que recebera, pelo correio, do Colgio Isnard. Tinha de recordar seus conhecimento de matemtica, qumica e principalmente biologia. Haveria um exame de suficincia em todas as matrias bsicas e ela queria estar preparada. Voltar a estudar era um sonho que acalentara por anos  fio e por nada no mundo Tess perderia aquela oportunidade preciosa que os Hart lhe ofereciam. 
    0 inesperado convite de Paul Butter para sair no sbado pegara-a totalmente de surpresa. E ela simplesmente no pudera recusar. No depois de ser presenteada com aquele lindo urso de pelcia que ele trouxera de Saint-Louis. Suas defesas haviam rudo diante do gesto espontneo daquele jovem executivo to belo e elegante, que, parecia realmente se importar com ela. Paul Butter era um homem inteligente e bem-sucedido. E no parecia  incapaz de  distinguir uma novilha de uma  mulher, como dissera Callaghan sobre o rapaz com quem ela tivera aquele encontro desastroso, no passado. Alm do mais, Paul a convidara apenas para danar. E ela no tinha a menor inteno de deixar que algo mais ocorresse alm disso; 
    No incio da noite de sbado, Tess tomou um longo banho,  penteou-se cuidadosamente, caprichou numa maquiagem leve e escolheu um belo vestido azul, que guardara para usar numa ocasio especial. 
    Enquanto se aprontava, permitiu-se um momento de fantasia... E imaginou-se vestindo-se para Callaghan Hart. Mas afastou essa iluso, com um meneio de cabea, queria pensar em Callaghan... No naquela noite em estava disposta a se divertir, danar, passar umas horas agradveis em companhia de um homem atencioso e gentil.
    Quando Paul estacionou seu reluzente carro esporte em frente  varanda da casa, Tess j estava  sua espera. Como  no houvesse ningum em casa, deixara um bilhete sobre a  mesa da cozinha, avisando que voltaria antes da meia-noite. 
     Voc est linda  disse Paul, oferecendo-lhe um boto de rosa e beijando-a no rosto  0 azul  tambm  minha cor favorita. 
    Num terno esporte creme, de corte perfeito, ele parecia a imagem do sucesso. 
    Voc tambm est muito elegante  ela afirmou, lisonjeada. 
     Pronta para se divertir? 
     No tenha a menor dvida. 
     Ento, vamos.  Num gesto galante, Paul abriu  porta do carro, para que Tess entrasse. 
    O percurso at a cidade transcorreu num clima agradvel. Tanto Paul, quanto Tess, gostavam de msica. E logo viram que tinham algo em comum: a preferncia pelo rock, por filmes de aventuras e documentrios sobre a vida selvagem. A conversa era franca, rpida e brilhante, bem diferente dos assuntos cotidianos da fazenda. 
     Ele sabe como colocar uma pessoa  vontade, Tess pensou. Alm do mais,  extremamente alegre e comunicativo. 
    Quando chegaram a Jacobsville, havia se estabelecido entre ambos um clima de camaradagem e confiana, que Tess esperava poder chamar de amizade. Isolada na Fazenda Hart desde a morte do pai, estava deliciada com a companhia vibrante de Paul, que constitua uma novidade preciosa. 
    O casal fez sensao ao entrar no Bar Highball, a melhor  casa noturna da cidade. Paul realmente sabia cativar as pessoas. E mostrou sua popularidade cumprimentando a todos, conversando amavelmente com os garons e com o dono do estabelecimento. 
    O conjunto que tocava no bar abriu uma seleo com antigas canes de Bob Dylan, que havia muito Tess no ouvia Mas conhecia muito bem aquele grande cantor e compositor, desde criana. Pois era o artista preferido de seu falecido pai. 
    A certa altura, Paul tirou-a para danar. Tess surpreendeu-se com a agilidade daquele homem, que to bem sabia conduzi-la, ao ritmo da msica. 
    Assim, ambos danaram at o final da seleo, entre comentrios alegres e animados. A noite estava quente. E Paul pediu vrios coquetis de frutas com vinho branco. 
    Era uma bebida leve, de baixo teor alcolico, muito agradvel. S que as vezes Paul se ausentava da mesa e ia at o balco do bar, para conversar com algum. E, ali, pedia drinques mais fortes. 
    Tess logo se deu conta disso. Ao aceitar novamente o convite de Paul para danar uma seleo de velhos sucessos dos anos oitenta, ela percebeu uma mudana sutil no comportamento do parceiro... 
    Nas canes mais lentas, ele a estreitava nos braos, reduzindo cada vez mais a distncia entre os corpos. Tess tentava recuar e sem sempre conseguia. Com o correr da noite, ela comeava a ficar alarmada, devido ao grau de intimidade que Paul insistia em estabelecer entre ambos. 
    Em meio a uma cano, Tesa disse baixinho: 
     Por favor, no me aperte tanto para danar. 
     Ora...  Ele afastou um pouco o rosto e sorriu.  Trata-se de uma msica romntica, querida. Olhe s  nossa volta... No estamos agindo diferente de ningum. 
    De fato, havia casais em torno, estreitamente ligados cujos corpos pareciam um s, no movimento da dana. Resignada, Tesa tentou relaxar, mas sem sucesso. 
    As horas avanavam e agora Paul se ausentava da mesa com maior freqncia, demorando muito a voltar. Estava corado e falante.. Perdera sua costumeira polidez, que o tornava gentil e atencioso. Gesticulava muito e transpirava em excesso.
    O conjunto comeou a tocar Summertime, que Tess considerava, a mais bela de todas as msicas norte-americanas. 
     Esta ns no podemos perder  disse Paul, - levantando-se da cadeira,  Venha, Tess...  E sem esperar  resposta, puxou-a pela mo, at a pista de dana. 
    Tess estava contrariada. Tudo comeava a acontecer de maneira bem diferente da que ela esperava. 
Paul a apertava contra si, buscando o mximo de contato possvel. Tesa j estava a ponto de abandon-lo, no meio da msica, quando ele disse, autoritrio: 
     No suporto inalar esse calor. Vamos sair daqui. Luzes vermelhas de alerta acenderam-se na mente de Tess, enquanto ele praticamente a arrastava para fora da casa noturna. A essa altura, j se sentia arrependida por ter vindo 
     Que surpresa! Callaghan Hart em minha lanchonete! 
     Ol, Lillian.  Ele sorriu, com simpatia.  Voc est tima. 
     tima para uma cirurgia plstica, voc quer dizer  ela gracejou. 
     No exagere. Voc continua sendo uma das mulheres mais belas de Jacobsville. 
     Nossa!  Ela fingia-se chocada.  Os homens mentem com tanta facilidade... 
    Ambos riram, fitando-se nos olhos. Eram velhos conhecidos e tinham quase a mesma idade. 
     Quer tomar alguma coisa?  Llian ofereceu. 
     Uma gua tnica, com limo e muito gelo. 
     Lillian providenciou o drinque e, dispensando o garom, fez questo de servir Callaghan pessoalmente. 
     Pronto. Agora me diga... O que o traz aqui? 
     E desde quando  preciso haver um motivo para visitar uma velha amiga?  ele retrucou, em tom brincalho. 
     Deixe de conversa e v logo ao assunto. Estou curiosa. 
     Antes me diga como est Joe.  Callaghan se referia ao marido de Lillian, a quem tambm conhecia h muito tempo. 
     Muito bem. Ele  um companheiro de vida maravilhoso. 
    Vocs dois formam um casal feliz. E isso  muito raro, hoje em dia. 
     Pode apostar que sim, Callaghan. 
     E o beb? 
     Est cada vez mais lindo e j fazendo gracinhas. E agora, que j lhe dei notcias da famlia, que tal me contar o que veio fazer aqui? Eu o conheo, Callaghan. Voc nunca freqenta minha lanchonete... 
    Callaghan sorveu um gole do drinque, antes de dizer: 
     Estou precisando de informaes a respeito de Paul Butter. Voc o conhece? 
     Quem deve conhec-lo  voc, j que o contratou para trabalhar. 
     Ento, voc sabe de quem estou falando. 
     Claro. Mas continuo no estou entendendo. Voc certamente deve ter tirado informaes sobre ele, antes de admiti-lo como gerente de vendas da fazenda. 
     Na verdade, no fui eu, mas sim Reynard, quem o contratou. 
     Ento pergunte a ele, ora. 
     Acontece que no estou interessado, exatamente, no currculo de Paul Butter e sim na pessoa que ele . 
     Estou comeando a entender. Voc quer saber das conversas que, ouo por aqui, nas longas noites de pouco movimento. E isso? 
     Sim. Aposto que voc j ouviu falar dele. 
     Infelizmente, h muitas fofocas nesta cidade. 
     Mas voc saberia distinguir entre um simples comentrio maldoso e uma informao interessante. 
    Lillian sorriu e, contornando o balco, sentou-se ao lado de Callaghan. Ficou em silncio por alguns instantes e, por fim disse: 
     O sujeito  instvel. H dias em que deixa uma gorjeta enorme para o garom. E, em outros, fica procurando moedas no bolso, para pagar um drinque. Mas isso no significa muita coisa, no  mesmo? 
     E com as mulheres?  Callaghan indagou.  Como ele se comporta? 
    - Parece desprezar a maioria delas. Acho que se julga superior s caipiras de Jacobaville. Uma noite ele convidou Susi e Cathy para tomar uma cerveja. Elas trabalham como garonetes, no restaurante ali da frente. E no gostaram nem um pouco da companhia do bonito... 
     Por qu?  Os olhos negros de Callaghan estavam atentos, fixos nos de Lillian. 
    Parece que ele fica muito ousado, quando bebe. Voc.... entende o que estou dizendo, no? 
    Callaghan sentiu um frio no estmago e um gosto amargo na boca. Lembrou-se da conversa que tivera com Tess, certa tarde, durante um passeio pela fazenda. E de que ela lhe contara sobre o incidente ocorrido, com um rapaz que tentara for-la. 
    Ele agrediu as duas garonetes?  perguntou, lutando para controlar a aflio. 
     No chegou a tanto. Mesmo porque, aquelas garotas so espertas. Quando viram que ele estava descontrolado, deram um jeito de escapar. 
     Era o que faltava  Callaghan resmungou, levantando-se da mesa.  Bem, obrigado por tudo, Lillian. Agora, preciso ir. Voltarei num outro dia, com mais tempo.  Deixando uma nota em cima do balco, que dava para pagar vrios drinques afora o que nem  sequer tinha acabado de tomar, Callaghan saiu da lanchonete. E caminhou a passos 
largos em direo ao carro. 
    Consultou o relgio de pulso, que marcava quinze para a meia noite. No era to tarde assim, ele pensou. Mas mesmo assim acelerou o veculo com fria. 
    No haviam muitas opes para quem quisesse se divertir em Jacobsville. Trs casas noturnas dominavam a noite da pequena cidade. A qual delas Paul teria levado Tess? Callaghan perguntou-se. Num sbito pressentimento, resolveu comear pelo Bar Highball, que ficava do outro lado da cidade. Imagens violentas, cenas extravagantes invadiram-lhe a mente, como num filme de horror. 
    O trfego era leve, na noite avanada. Poucos carros transitavam  por jacobsville, em mdia velocidade. Depois de algum tempo, Callaghan avistou as luzes multicoloridas da fachada do Bar Higbball, no final de uma longa avenida. Diminuiu a marcha, com os olhos atentos, a corao batendo forte. Parou o carro junto ao meio-fio e entrou a p no estacionamento quase lotado. 
     Acho que me enganei  murmurou, enquanto seu olhar percorria os carros ali parados. 
    A intuio, que o conduzira quele local, parecia ter falhado, Callaghan pensou. Pois o carro de Paul Butter no estava  vista. 
    J prestes a desistir, Callaghan resolveu olhar atrs de um Camper empoeirado. O enorme veculo impedia-o de ter uma viso total do estacionamento. E l estava,, bem atrs do Camper, o reluzente carro esporte de Paul, inconfundvel e nico na modesta cidade de Jacobsville. Respirando fundo disse baixinho: 
     Farei um papel ridculo, se nada de grave estiver acontecendo. 
    Mas, no fundo, Callaghan desejava estar errado a respeito de Paul Butter. Era prefervel que ele prprio fizesse um papel infeliz, do que Tess correr algum perigo... 

    Tess experimentou uma sensao de alvio, ao transpor a pesada porta de ferro que separava o Bar Highball de um ptio lateral. Tess aspirou, com prazer, o ar noturno. Uma brisa fresca acariciava-lhe o rosto. 
    Paul havia soltado sua mo, encostando-se displicentemente na parede do ptio. Tinha um riso cnico nos lbios. 
     Estamos bem melhor aqui, no acha? 
    Ela olhou em volta e situou-se. Um alto alambrado parava o ptio do estacionamento. Era preciso sair dali, o quanto antes. 
     L dentro estava muito quente  Tess respondeu, por fim.  Bem, se voc no se incomoda, eu gostaria de ir para casa. Afinal, j passa da meia-noite e... 
      Sua carruagem vai virar abbora, Cinderela?  ele a interrompeu com um riso que era a um s tempo sarcstico e agressivo. 
    Tess podia sentir a tenso no ar. No gostava nada daquela situao, mas tampouco podia se desesperar. Era preciso agir com calma. 
     Amanh  o dia de folga da sra. Lewis  anunciou, ignorando a provocao de Paul.  Portanto, eu me encarregarei do caf e do almoo. E por isso terei de acordar cedo. 
    Com forada naturalidade, Tais caminhou em direo  porta que dava acesso ao bar, temendo a cada passo que ele a impedisse, ou que barrasse seu caminho. Mas Paul continuava sorrindo daquela maneira desagradvel, sem se mover do lugar onde estava. 
    Mais confiante, Tess empurrou a pesada porta de ferro que dava acesso ao bar. Estava trancada. Com as mos ligeiramente trmulas, procurou a maaneta. E constatou, espantada, que ela no existia A voz de Paul soou bem prxima: 
    - Esse tipo de porta s se abre pelo lado interno, princesa.  para dificultar a vida dos ladres. H muita gente  m, mesmo, numa cidade pacata como Jacobsvile . acrescentou, tentando imitar o sotaque local. 
    Paul aproximou-se dela, sem pressa, como se tivesse certeza do que iria acontecer em seguida. Prendeu Tess entre os braos e tentou beij-la. Movendo a cabea de um lado a outro, ela fugia do contato odioso. 
    Paul riu e pressionou o corpo sobre o dela, parecendo extrair disso um prazer pessoal e egosta, que s fazia sentido a ele. Tess tentou empurr-lo para longe... E ento conheceu a brutalidade que se disfarava por trs da aparncia educada e solcita de Paul. 
    Forando o joelho entre as pernas de Tess, mantendo-a presa entre seu corpo e a parede, Paul tentou baixar as alas do vestido azul que ela usava. E o fez com tal mpeto, que o leve tecido rompeu-se, com um rudo dilacerante, expondo os seios alvos de Tess  luz difusa que vinha do estacionamento. 
    Ela lutava desesperadamente para manter os lbios vidos de Paul longe dos seios. Mas, alm da fora, Paul parecia ter prtica naquele tipo de jogo. 
     Resista, princesa  ele sussurrou.  Fico mais excitado, assim. 
    Um grito rouco brotou da garganta de Tess, enquanto Paul baixava o rosto para alcanar-lhe os seios. Tess gritou novamente, dessa vez bem mais alto. Paul empurrou-a para baixo, forando-lhe a cabea, at faz-la ajoelhar-se. 
A porta metlica do bar abriu-se, ao mesmo tempo em  que o som de um rock explodiu repentinamente no ptio e  um jorro de luz varreu o piso. Paul foi elevado no ar e  atirado como um boneco de encontro ao alambrado. 
     Saia daqui, Tess! Agora! 
    Confusa, ela se ps em p, com dificuldade. A sua frente estava Callaghan, que lhe estendia uma jaqueta. 
     Vista isso e v para o meu carro  ordenou, numa voz estranhamente calma.  Est estacionado no meio-fio. 
    Ela obedeceu sem titubear. E caminhou, trpega, para o interior do Highball. Teve tempo de ouvir um rudo seco, um gemido e, depois a voz de Callaghan distorcida pela ira. 
     Agora vou lhe ensinar uma lio, seu cretino. 
    Tess no esperou para presenciar o desfecho, j previsvel, da fria de Callaghan. Atravessou o salo do bar e saiu para a rua. A porta do carro estava apenas encostada e ela entrou. Logo viu Callaghan se aproximando. Contornando o veculo, ele entrou e acomodou-se diante do volante. 
    Voc est bem? perguntou, com o semblante alterado e a respirao difcil. 
    - Sim. Leve-me para casa, por favor  ela pediu, num tom quase inaudvel. 
    - Creio que aquele canalha vai levar um bom tempo para esquecer a lio que acaba de receber  disse Callaghan, acionando o motor e partindo. 
     Como foi que voc nos achou? 
    - Tive um palpite e no errei. O que voc estava fazendo no ptio do Highball, com aquele miservel? Pensei que fosse mais esperta. 
    - Eu no tinha a menor idia de para onde ele estava me  conduzindo. Pensei que fosse uma sada para o estacionamento. 
     Voc teve sorte, desta vez. Paul poderia t-la machucado seriamente.  
    Inclinando-se, ela cobriu o rasto com as mos, tentando apagar da memria aquelas imagens odiosas que teimavam em voltar-lhe  cabea. 
    - Que espcie de pessoa  Paul Butter? perguntou mais para si mesma.  
    Da pior espcie ,pode apostar.  do tipo que d ursinhos de pelcia s garotas, antes de tentar estupr-las. 
    -Ele parecia to educado, to sincero. 
    --Os canalhas so bons atores. Acreditam sinceramente no papel que desempenham. Enquanto lhes convm,  claro. No fundo, sabem o que so, mas arranjam todo tipo de desculpas para no se olharem de frente num espelho. 
     Isso tudo  to nojento.  Voc entende, agora, porque nunca saio com ningum? 
    - Claro, mas no tem de ser sempre assim. Existem pessoas decentes, capazes de sentimentos nobres. 
    - Voc est falando isso apenas para me consolar. Voc  to solitrio quanto eu, Callaghan. As pessoas devem t-lo magoado muito.. 
     E verdade. No foram poucas as decepes que sofri em minha vida. A guerra, Tess,  uma coisa horrvel. Transforma o ser humano. 
     Quase tudo nos transforma. Mas eu quero acreditar na possibilidade de viver bem com os outros. Tenho amor dentro de mim, no quero o mal de ningum, nem mesmo desse infeliz do Paul Butter...  Ela comeou a chorar baixinho.  Di muito, sabe? 
    Callaghan saiu para o acostamento e desligou o motor. Sem mesmo pensar no que fazia, atraiu Tess para si, apertando a de encontro ao peito. Enquanto beijava-lhe os cabelos desarrumados, dizia com voz branda: 
     Isso vai passar. Voc s tem vinte e dois anos, meu anjo. A vida est toda a sua frente esperando para lhe dar grandes realizaes e alegrias. No fique assim. Foi s um mau momento. 
    Tanta delicadeza vinda de um homem to duro e sofrido, era comovente. Nos braos de Callaghan, Tess sentia-se protegida do mundo. Os soluos aumentaram de intensidade e ela chorou longamente. 
    Callaghan sbia que aquela reao era absolutamente natural. Mesmo assim sentia o corao partido. E buscava, desesperadamente, um modo de acalmar Tess. Beijava-lhe seguidamente os cabelos e sentia o pulsar de seu prprio corao se acelerando. 
    De sbito ocorreu-lhe que se conversasse com Tess talvez a ajudasse  relaxar. E num tom carregado de doura, comentou: 
     Leopold me contou que voc est estudando para o exame no Colgio Isnard. Se tudo correr bem, logo ter amigos de sua idade, gente interessada em aprender e crescer. E tudo lhe parecer to diferente.
    Tess ergueu os olhos verdes, marejados de lgrimas. Fixou os de Callaghan e, num impulso, tocou-lhe os lbios com os seus, selando aquele momento com um longo beijo. 
    A jaqueta que Tess usava sobre o vestido azul estava entreaberta, revelando-lhe os selos alvos. Com infinita delicadeza, Callaghan acariciou-os ternamente e depois beijou-os, sentindo-os reagir e intumescer ao contato de seus lbios experientes. 
    - O que voc est fazendo  ela perguntou, baixinho.
    - Dando-lhe um pouco de carinho. Quer que eu pare?
    - No.  tudo to bom...  Tess suspirou de prazer.  Mas voc precisa saber que sou virgem.
    - Eu j imaginava  ele afirmou, num sussurro. E voltou a beij-la. Depois, mantendo Tess de encontro ao peito, acaricou-lhe os cabelos, o rosto... Mas j no havia inteno sensual naqueles gestos. Apesar do desejo que o consumia, Callaghan sabia que Tess precisava se acalmar. E aos poucos ela foi relaxando, suspirando docemente, at adormecer.
    Quando Tess despertou, ambos j estavam na fazenda, diante do imponente casaro, ainda no interi do carro. Um vento forte sacudia as rvores e os raios iluminavam a escurido em torno. 
     Que horas so?  ela perguntou, sonolenta. 
     Quinze para as trs  Callaghan respondeu, fitando-a com curiosidade. 
     Por que voc est me olhando assim? 
     Por nada. Voc  to jovem... Parecia uma menina dormindo. 
Ela espreguiou-se,  lnguida, depois sorriu: 
     Voc parece fazer questo de lembrar a diferena de idade que existe entre ns. 
     Este  um dos problemas, sem dvida alguma. 
     Por qu? No vejo problema algum. Ns nos compreendemos to bem, Callaghan. E isso  o que verdadeiramente importa. 
    As palavras de Tess deixavam bem claro o quanto ela estava aberta a um relacionamento srio, Callaghan concluiu. Um sorriso que era a um s tempo comovido e triste estampou-se em seus lbios. 
     Voc no pensa no amanh, Tess? 
     Seja mais claro, Callaghan. O que est tentando me dizer? 
     Tess... Eu no sou do tipo que se cAsa. Tenho manias demais. 
     E um passado triste, pleno de recordaes dolorosas. 
     Que seja. De qualquer maneira, no sou o homem certo para voc. 
     Por qu? 
     Por muitos motivos. Tenho trinta e oito anos de idade e, voc, apenas vinte e dois. No pretendo me casar e voc, sim. 
     Quem lhe disse isso? 
     Ora, Tess... Voc no serviria para se tornar amante de um homem amargurado como eu. Voc tem sonhos, planos de vida. Quer estudar, crescer... 
     No vejo o que uma coisa tem a ver com a outra. Posso perfeitamente estudar e manter um relacionamento com voc, sem exigir que se case comigo. 
     No diga asneiras  ele a repreendeu, num tom severo 
Ela procurou gracejar: 
     Voc  muito pretensioso, Callaghan Hart. Acha mesmo que eu me casaria com um sujeito mal-humorado que tem por hbito atirar bolos nas pessoas? 
     Espere um pouco, Tess Brady  ele retrucou no mesmo tom  Nunca atirei bolos em ningum. Foi na parede da cozinha. Voc se encontrava a dezenas de metros do locaL Esta acusao  totalmente falsa. 
     A verdade  que voc estragou meu lindo bolo. 
     E voc nunca vai me perdoar por isso, eu sei. 
     J perdoei. Mas no esqueci 
Eles se olharam com intensidade. 
    Num gesto cheio de carinho, Tesa beijou Callaghan levemente, acariciando-lhe o rosto. 
     Voc tem medo de amar de novo e ser ferido outra vez  disse, baixinho. 
     Tem razo. Mas nosso problema  um pouco mais complicado... 
     Como assim? . 
     Voc, Tess  ele suspirou.  Voc precisa ter chance de conhecer outros jovens, gente da sua idade, compreende? 
     Mas eu no quero. 
     Agora, voc pensa assim. Mas e se daqui a algum tempo voc descobrir que meus defeitos so bem mais insuportveis do que julgava, a princpio? que suas fantasias 
e anseios tm outras direes?  
     Tudo  possvel, Callaghan. Mas como saberemos, se no tentarmos? 
     Na verdade ns... no saberemos.  Callaghan abriu a porta do carro.  Vou at o estbulo, dar uma olhada nos cavalos. Vai cair uma grande tempestade e eles certamente esto assustados. 
    - Espere, por favor...  Tess pediu, num tom de splica. 
     V descansar. Amanh, se quiser, voltaremos ao assunto.  E Callaghan afastou-se a passos largos. Com uma terrvel sensao de abandono Tess o viu desaparecer na escurido.     Mas se Callaghan esperava que ela fosse desistir do sentimento que trazia no peito, estava muito enganado...     Assim Tesa pensava, ao entrar no casaro, no momento exato em que a chuva desabou. 
    No ouviu o despertador e acordou somente por volta de oito horas, disposta mas atrasada para o caf da manh. 
Era domingo, dia de folga da sra. Lewis. Tess bem que sentia vontade de dormir mais, ou apenas ficar na cama, lembrando os doces momentos que vivera com Callaghan, a conversa, os beijos excitantes... Mas tinha mesmo de levantar-se. 
    J em Paul Butter ela nem queria pensar. Certamente ele no teria coragem de voltar  fazenda. Mesmo porque, se ousasse faz-lo, estaria correndo um srio risco de levar outra surra. 
    Afastando os lenis, Tess saltou da cama, tomou uma ducha rpida e foi para a cozinha. Meia hora depois, o caf estava servido. S que ningum apareceu para tom-lo. 
Saindo para o ptio Tess encontrou Ted, o capataz: 
     Ol  ela o cumprimentou.  Cad todo mundo? Ted informou-a sobre o que havia ocorrido. A tempestade da noite fora violenta. Um raio tinha partido um antigo carvalho, derrubando-o sobre a cerca que separava dois pastos repletos de novilhos. As reses, apavoradas, haviam debandado. Os trs irmos Hart, com a ajuda de dois pees, tinham passado a noite tentando junt-las e coloc-las em seus devidos lugares. Ao clarear do dia, a cerca j estava. restaurada e, o trabalha, concludo. 
     Devem estar todos dormindo  ele acrescentou, j no final da narrativa.  Voc perdeu tempo em fazer o caf da manh. 
     Tem razo. Mas podemos dar um jeito nisso. Quer me acompanhar numa xcara de caf e um pedao de bolo? 
     Nem  preciso perguntar duas vezes. 
    Assim ambos fizeram o desjejum juntos. Quando o capataz se retirou para cuidar de seus afazeres, Tess comeou a preparar o almoo: fils de frango grelhados com batatas assadas, uma grande salada mista e suco de frutas. 
    Ao meio-dia a mesa estava servida. Por toda a cozinha espalhava-se um aroma tentador. Reynard foi o primeiro a chegar. Vinha alegre e falante, como sempre. 
     Depois de uma noite infernal, s mesmo um bom almoo para levantar o nimo  disse, sentando-se  mesa. 
     Bom dia para voc tambm...  Tess lembrou-o dos bons modos, com um sorriso. 
    - Oh... Desculpe-me. Bom dia, Tess. No fosse voc para dar um ar de normalidade nessa casa, viraramos todos uns selvagens. 
     Fale por voc  Leopold interveio, entrando na cozinha.  No me inclua nessa lista. 
     Ora, vejam s..  Reynard retrucou, em tom brincalho,  Chegou o mais civilizado dos Hart. A fina flor da famlia. Diga-me Leopold, em que escola lhe ensinaram que o traje de dormir inclui, as botas? 
    - Do que voc est falando? 
     Quando passei pelo seu quarto a porta estava aberta e, voc, dormindo... De botas e esporas. Uma beleza! 
     Nem me dei conta  Leopold resmungou, contrariado.
 Simplesmente desabei sobre a cama. 
     Aposto. que tambm no escovou os dentes e nem fez suas oraes. 
     Bom dia a todos.  Callaghan entrou na cozinha, interrompendo a conversa. Trazia os cabelos negros ainda midos do banho recm-tomado.  Estou perdendo assunto interessante? 
    - Ns discutamos boas maneiras, regras de conduta... Essas coisas fundamentais na convivncia diria com raios,. troves, ventanias, tempestades de neve, eqinos, caprinos e bovinos, em geral  Reynard respondeu, levantando-se. Puxou uma cadeira e fez uma reverncia cmica.  Sente-se, nobre patrono dos Hart. D-nos a honra de sua adorvel companhia. 
     O que deu nele? . Callaghan perguntou a Leopold. 
     Tenho uma vaga idia. Lembra-se daquela queda que ele sofreu na infncia, quando bateu a cabea num palanque da cerca? Pois bem... Acho que o crebro ficou avariado. 
    Encostada na pia, com os braos cruzados, Tess contemplava os trs irmos, com um sorriso que era a um s tempo divertido e terno. Decididamente, considerava-os como parte de sua famlia... A nica que lhe restava, no mundo. 
    Usando jeans, camisa xadrez azul e branca e botas, Callaghan estava mais belo do que nunca, ela constatou, mirando-o de cima a baixo. Um arrepio de pura sensualidade a percorreu.  vontade de beij-lo era intensa, quase irresistvel.
     Ser que podemos almoar?  Callaghan perguntou-lhe. Mas Tess apenas o fitava, embevecida.  Ele repetiu a pergunta. E s ento Tess pde ouvi-lo. Controlando as fortes emoes que a invadiam, respondeu: 
      Sim... Oh,  claro. J vou servi-los. 
     Reynard e Leopold trocaram um olhar cmplice, percebendo claramente o que se passava. 
     Por que no vem almoar. conosco, Tess?  Callaghan sugeriu, num tom carinhoso. 
     Preciso servir o almoo  ela retrucou, embaraada. 
     Ns mesmos nos serviremos.  E puxando uma cadeira a seu lado, convidou:  Sente-se aqui. 
    Ela sentiu-se corar at a raiz dos cabelos e obedeceu.  Durante todo o almoo Tess manteve-se em silncio, desfrutando a doura da solicitude de Callaghan para com ela. Antes que a sobremesa fosse servida, Leopold piscou para Reynard e, levantando-se, anunciou: 
     Vamos tomar caf na varanda, se no se importam.    Callaghan no respondeu, pois estava, ocupado em servir uma xcara de caf para Tess. Reynard e Leopold saram da cozinha, contendo a custo o riso. 
    Callaghan e Tess, porm, nem perceberam. Continuavam  mesa, olhando-se com curiosidade e desejo. 
     Voc quer figos em calda?  ela perguntou, aps longo momento. 
    - Sim, obrigado. Mas eu mesmo servirei. 
     No  preciso. Eu cuidarei disso.  Tess levantou-se, em poucos instantes, serviu dois pratos de doce. 
    Quando ela se aproximou, Callaghan envolveu-a pela cintura. Colocando os pratos sobre a mesa, Tess acariciou-lhe os cabelos midos. E, ao v-lo erguer o rosto, inclinou-se e beijou-o com paixo. 
     Voc sabe o que est fazendo?  ele perguntou, baixinho. 
     Acho que sim. Beijando.. voc. 
     Mais que isso. Est provocando uma fera chamada desejo 
     Estou morrendo de medo  Tesa murmurou, sorrindo os lbios roando os dele. 
     E se eu a arrastasse para o quarto neste exato momento? O que aconteceria? 
    -Quem sabe? Eu..talvez lutasse como um gato selvagem ou gritasse por socorro, ou simplesmente no fizesse nada Apenas me deixasse levar. 
    Em poucos segundos, os beijos clidos se tornaram ardentes; Erguendo-se, Callaghan estreitou Tess nos braos acariciando-lhe os cabelos, o pescoo, as costas... 
    O som de passas no corredor fez com que ambos se detivessem em meio s carcias e se afastassem, com um mudo protetor. 
    Renard entrou na cozinha, o rosto risonho, os olhos brilhando numa expresso marota. 
     Espero no estar interrompendo nada.  que eu Leopold samos to rpido, que esquecemos o caf. 
    Engraadinho Callaghan resmungou. Pegando a garrafa trmica, estendeu para ele  Afogue-se, se lhe d prazer. 
     Nossa... Que mau humor!  E Reynard saiu, rindo. O telefone tocou na sala e Tess foi atender. Com um suspiro resignado, Callaghan compreendeu que o momento de magia havia se findado. 
    Na manh seguinte, Tess pediu emprestado a Ted, o capataz, seu velho jipe. Precisava ir a Jacobsville, fazer sua Inscrio para o exame no Colgio Isnard. Sentia-se confiante pois estava estudando com afinco. Tinha grandes esperanas de passar. 
    Chegando  cidade, dirigiu-se ao Colgio Isnard, que funcionava num prdio antigo e bem conservado, tendo  frente um belo jardim. 
    Mas se a arquitetura agradou Tess, o ambiente que ali reinava chegou a fascin-la. Respirava-se um dinamismo prprio do meio estudantil, com muitos jovens circulando pelos corredores, ou conversando na cantina. 
    Tess no levou muito tempo para fazer sua inscrio. Teve de esperar apenas alguns minutos, na fila. Pouco depois, recebia um carto, com seu nome e um nmero. Estava inscrita. Tudo to rpido e eficiente, ela pensou, satisfeita. Nada mais tinha a fazer ali. Entretanto no se decidia a partir. 
Com a vida agitada que levara ao lado do pai, que mudava constantemente de uma cidade para outra, atrs de rodeios ou novos empregos, Tess tivera poucas chances de freqentar um ambiente como o Isnard. Nunca pudera construir uma amizade duradoura com os colegas, pois freqentava as escolas por to curto perodo, que no lhe sobrava tempo para isso. 
    Como Tess invejava, quando criana, os lares estabelecidos, a rotina diria de famlias que planejavam o futuro com segurana, a continuidade das relaes humanas que estabeleciam vnculos duradouros entre os seres. Agora, estava tendo uma nova oportunidade para retomar os estudos. Mas a instabilidade de sua vida continuava exatamente a mesma, ela concluiu, filosfica. No sabia at quando permaneceria a servio da famlia Hart. E teria muita sorte se pudesse chegar ao final do curso de Botnica... Supondo-se que passaria no exame de seleo, e ela esperava que sim. 
    Tess passeou mais um pouco pelo interior do colgio e depois dirigiu-se ao centro da cidade, pois queria fazer umas compras, antes de voltar para a fazenda. 
    O dia estava magnfico. O sol banhava o calado do centro comercial de Jacobsville. Tess terminou de fazer compras e resolveu comer alguma coisa, antes de partir.     Avistou uma lanchonete numa praa e para l se dirigiu. Pediu um sanduche de rosbife, uma vitamina, e esperou apenas alguns minutos para ser servida. O garom era solcito e, o ambiente, tranqilo. Mas a aparncia do sanduche era desanimadora. Tess o estava observando, quando ouviu  algum dizer, s suas costas: 
     Se eu fosse voc, no comeria isso. 
Ela voltou-se, sorrindo com simpatia, pois havia reconhecido a voz de Leopold. 
     O que faz por aqui?  perguntou. 
     Vi o Jipe l fora e resolvi entrar.  Leopold acenou para o garom, antes de sentar-a em frente a Tess. 
     O que acha que devo fazer com isso?  ela indagou num tom divertido, mostrando-lhe o sanduche. 
    Guarde na bolsa e depois envie a um laboratrio para anlise. Vai dar o que pensar aos cientistas... 
    Ela riu, empurrando o prato para o lado e provando um gole da vitamina. 
     Puxa, at que no est mal...  comentou. 
     As bebidas desta lanchonete so timas  Leopold sentenciou.  Vitaminas, sucos, drinques... Tudo muito gostoso. O problema  o rapaz responsvel pela cozinha. Baixando a voz, explicou:  O pai dele, um grande cozinheiro e chapeleiro, aposentou-se e deixou-o em seu lugar. S que o rapaz no tem a menor vocao para a coisa 
    O garom trouxe o cardpio para Leopold, que devolveu imediatamente: 
     Quero apenas um suco de laranja  disse. 
     No vai comer nada?  o garom perguntou. 
     Sou muito jovem. No posso me arriscar tanto. 
    O garom franziu a testa, sem saber como reagir s palavras. E retirou-se para providenciar o pedido. 
Tess reprimiu o riso, para no deix-lo ainda mais desconcertado. 
    - Como foram as coisas, l no Isnard?  Leopold perguntou
     Tudo certo. Estou inscrita para o teste. 
     timo. 
     Mas como voc soube que vim a Jacobsville para isso? 
    Voc comentou com o capataz e ele me contou. 
    Oh, claro. 
    Est confiante? 
    Sim.. Tenho estudado muito. 
    Voc vai ser admitida no curso. Fique tranqila. 
     Como pode ter tanta certeza, Leopold? 
     Pela rapidez com que voc aprendeu computao. 
Tess fitou-o com gratido, antes de dizer: 
     Voc tem sido bom para mim. 
     Ora, voc merece toda a considerao do mundo, Tess. 
Ela sorriu, comovida. 
    O garom aproximou-se, trazendo o suco de laranja encomendado por Leopold. 
     E quanto a voc? - Tess perguntou, quando o garom se afastou.  O que veio fazer na cidade? 
     Tenho um encontro de negcios no Restaurante Brewster. 
     Veio sozinho? 
     Com Callaghan. Reynard voou para Tulsa. Foi ver umas terras, por l. 
     Espero que a comida do Brewster seja melhor que a daqui. 
     Quer saber de uma coisa?  Leopold confidenciou.  No  muito saborosa. Mas o ambiente  propcio s negociaes. Mesas afastadas umas das outras, muitas plantas, ar-condicionado perfeito, um bom estoque de vinhos e... a filha do proprietrio, que  uma atrao  parte. 
     Bonita? 
     Mais que isso.  um encanto. 
    - E Callaghan? Como se comporta diante dela? 
     Ignora-a gentilmente, como faz com todas as mulheres. Desde que foi abandonado pela noiva, ficou arredio ao sexo feminino. Voc j deve ter ouvido falar nessa histria. 
     Vagamente. O que aconteceu, de fato? 
     O velho drama de sempre. Lisa era bem mais nova que Callaghan. Quando ele partiu para a guerra, ela se envolveu com um homem mais jovem, rico e sem nada na cabea alm da vontade de se divertir. E, para piorar ainda mais a situao, ele era amigo de Callaghan.  Leopold fez uma pausa, antes de se corrigir. -- Amigo, no. Pois algum que merecesse este nome no agiria assim. Enquanto meu irmo se recuperava dos ferimentos sofridos, num hospital da Alemanha, Lisa e ele se casaram. 
     Imagino o quanto ele sofreu. 
     Eu tambm. Callaghan entrou numa depresso to profunda, deixou-o traumatizado. Alis, Callaghan  assim mesmo. Acho que nunca se superou, totalmente, os sofrimentos por que passou. Da, comete atos terrveis... 
     Como atirar seu bolo de aniversrio na parede, por exemplo. 
     Ou hostilizar voc, pelo simples fato de sentir-se atrada por ele.
     Ora, Leopold, seu irmo me hostilizou logo que comecei a trabalhar na fazenda. 
     Ento, deve ter sido atrao  primeira vista. 
     No brinque com coisas srias  ela o repreendeu. 
    - No estou gracejando. Acho que Callaghan de fato a 
tratava mal porque sentia-se ameaado nas defesas que criou contra as mulheres. No lhe parece bvio? 
     Colocado dessa forma, faz sentido. Mas ento, por que ele mudou? 
    Leopold sorriu levemente, abrindo os braos numa interrogao muda. Sorveu um longo gole do suco de laranja e disse 
     S voc pode responder esta pergunta. No sei o que se passou entre vocs, no sbado  noite, depois que deu aquela lio a Paul Butter. E nem quero saber. Mas sinto-me na obrigao de lhe dizer que o problema de Callaghan no terminou por isso. Est l, dentro dele, sempre. No se iluda, Tess. 
    Sentindo que podia confiar na amizade que a ligava a Leopold, Ela arriscou-se a indagar: 
     O que faria, se estivesse em meu lugar? 
    Ele meneou a cabea, antes de responder: 
     Sinceramente, no sei. Mas, se aceita um conselho dedique-se o mximo possvel aos estudos e procure abrir um campo de relacionamento com pessoas da sua idade 
    Tess ficou pensativa por alguns instantes. Terminou tomar sua vitamina e por fim falou: - 
     Quanto aos estudos, voc pode ficar tranqilo.  um sonho que quero ver realizado. Mas relacionar-me com jovens parece muito difcil... 
     Ora essa, mas por qu? 
     No sei... Vivi uma realidade diferente da maioria da pessoas de minha idade. No tive o que se pode chamar de uma vida normal. 
     Essas diferenas podem ser positivas, dependendo do ponto de vista. Aposto que muitos jovens achariam interessante conversar com algum que tivesse experincias to diversas das deles. 
    Tess assumiu uma expresso incrdula. E ele insistiu: 
     Voc  bem mais inteligente do que imagina. Vai acabar descobrindo uma forma de se relacionar com seus colegas de estudo. Uma forma que ser, ao mesmo tempo, original e comunicativa. 
     Voc acha? 
     Tenho certeza, Voc est se preocupando a toa. Ao menos nisto voc  igual s pessoas de sua idade. 
     Os medos so semelhantes!  ela exclamou, com triste ironia.  E a insegurana tambm. 
    Leopold tomou-lhe a mo, num gesto de solidariedade e carinho.. 
     Tudo dar certo para voc, Tess. Acredite nisso.. 
     Vou tentar. 
    Bem, agora preciso ir. Callaghan j est no Brewster., com certeza impaciente sobre minha demora. 
     Voc vai contar a ele sobre nossa conversa? 
     Voc gostaria. que eu fizesse isso? 
     No. . 
     Ento, ele nada saber. At mais tarde, Tess. Ns nos veremos na fazenda.  E Leopold partiu, deixando sobre a mesa dinheiro suficiente para pagar a conta. 
    O sol veio brincar no rosto de Tess na manh seguinte, atravs da janela entreaberta, fazendo-a acordar de bom humor. 
     A mesa do desjejum faltava Reynard, ainda em viagem a Tulsa. callaghan e Leopold, apressados, mal engoliram uma xcara de caf com biscoitos e saram para o trabalhar 
A sra. Lewis movimentava-se pela casa cuidando da limpeza. Tess foi para o escritrio, a fim de digitar umas cartas. Mergulhada no trabalho, nem viu as horas passarem
Por volta de meio-dia a sra. Lewis veio avis-la de que o almoo estava pronto e que no esperasse pelos irmos Hart pois Leopold havia ligado, dizendo que s voltariam mais tarde. 
    O dia transcorreu de maneira agradvel e, l pelas quatro da tarde, Tess resolveu que faria o jantar. E mais  uma sobremesa mexicana, que h muito queria experimentar: 
Todos diziam que Tess cozinhava bem e ela considerava isso um dom, como ter ouvido para msica. Mas a verdade era que se deixava absorver pelo que fazia, colocando toda sua capacidade e imaginao no preparo dos pratos. Alm do mais, a curiosidade a impulsionava em direo ao desconhecido. Adorava tentar uma nova receita ou modificar  radicalmente outra, j bem conhecida. Os resultados eram surpreendentes, sempre. 
    Naquela noite, quando Leopold e Callaghan sentaram-se  mesa ela os presenteou com roletes de merlusa banhado em vinho branco, acompanhados de arroz e salada de alface. Os pratos arrancaram exclamaes entusiasmadas de Leopold e um sorriso aprovador de Callaghan, que disse: 
     E pensar que, ainda ontem, tivemos de nos submeter quele peito de frango ressecado no Restaurante Brewster. 
Leopold e Tess riram, divertidos. E o jantar prosseguiu num clima alegre e divertido. 
    No final da refeio, Leopold anunciou: 
     Tenho um compromisso, na cidade. Vou me encontrar com Billy no Sheas Bar. Pretendo convenc-lo a me vender o touro da raa Salers, premiado na feira de Dallas. 
     E aposto que vai aproveitar a oportunidade para passar pelo Restaurante Brewster, s para ver a linda filha do proprietrio...  Callaghan provocou-o. 
     Que mal h nisso?  Leopold retrucou, comum sorriso maroto.  Sou um homem livre  desimpedido. 
     Tudo bem  Tess interveio. - Mas gostaria que antes de sair voc provasse a sobremesa que fiz. 
     Obrigado, mas vou deixar para depois  Leopold respondeu.  Estou realmente com pressa.  J estava saindo da cozinha, mas voltou-se para dizer:  A propsito, o jantar estava divino.. E acrescentou, brincalho:  Comportem- se durante minha ausncia, crianas. 
    Para surpresa de Tess, Callaghan tambm se levantou: 
     Tenho que resolver uns assuntos, no escritrio. 
     Diga a verdade... Voc est mesmo apressado, ou no 
quer a sobremesa? - 
     No  se trata disso.  Ele consultou o relgio.   que preciso ligar para Reynard. dentro de alguns minutos. 
      Tive um trabalho enorme, para nada  ela queixou-se, aborrecida. 
     Se voc no se importar de levar a sobremesa at  o escritrio... 
     De modo algum. 
     Ento, estarei esperando.  E Callaghan saiu. 
Tess abriu a geladeira e testou a consistncia do doce com a ponta de uma colher. Estava no ponto ideal. Colocou duas unidades num belo prato de loua antiga, que depositou numa bandeja, ao lado de talheres de prata. Cheia de expectativa, dirigiu-se ao escritrio. 
    Callaghan falava ao telefone e indicou-lhe o sof, convidando-a  a sentar-se. Tinha acabado de ligar para Reynard e a conversa durou um longo tempo. 
    Por fim desligou e, voltando-se para Tess, disse num tom. carinhoso: 
     Venha at aqui e traga a famosa sobremesa. 
    Ela aproximou-se, com a bandeja nas mos e colocou-a sobre a mesa de trabalho de Callaghan. Ele envolveu-a pela cintura, puxando-a para o colo e beijando-a levemente no rosto, plpebras e, finalmente, nos lbios. 
     Vejamos o que voc reservou para mim  murmurou
     Prove.  Num gesto espontneo, Tess partiu o doce e levou uma colherada  boca de Callaghan. 
     Hum... Esplndido! O que  isso? 
     Merengue, hombre. Trata-se de uma sobremesa mexicana. Voc no conhecia? 
      Claro que sim. Mas sempre achei-o aucarado em excesso. Este, no entanto, est perfeito. D-me um pouco mais. Sorridente e feliz, Tess repetiu o gesto. 
      fantstico  Callaghan sentenciou, depois de saborear o segundo bocado  0 que usou como recheio, Tess?
    -  Creme de leite batido. 
    -- Mas tem um: leve sabor, que no estou conseguindo identificar. 
    - Vou dar uma pista.  um licor. 
    - Mandarino.. ... ele reconheceu, por fim. 
     Exato. Feito da casca da tangerina. Usei algumas para quebrar a monotonia do creme. 
    Voc, realmente, consegue sempre surpreender. D-me mais um pouco... 
    Ela estendeu a colher. Mas Callaghan entreabriu 
 os lbios recebeu um doce beijo, insinuante, cheio de significados... 
      Esta  a melhor sobremesa que j provei, em toda minha vida ele murmurou, sentindo o fogo do desejo correndo-lhe nas veias. 
     Tess adorava cada entonao daquela voz quente e grave que provocava-lhe pequenos arrepios de prazer, em ondas sucessivas e constantes. Os lbios exigentes e sfregos, as mos acariciavam todas as partes possveis de seu corpo inexperiente, adivinhando os pontos exatos do maior prazer, e ali se detendo, numa tortura deliciosa. Tudo parecia perfeito. 
A intensidade das carcias aumentava. Quase sem a perceber, ambos comearam procurar posies mais confortveis, favorveis  manifestao do desejo que os consumia. 
    Callaghan conhecia sua natureza oculta, a linha que separava o homem responsvel do ser primitivo e solto. Podia ver essa linha se aproximando e sendo transposta, quando a mo delicada de Tess pousou em sua parte mais sensvel. Chamando a si todo o controle de que ainda dispunha, ele se ergueu. E beijando Tess uma vez mais, afastou-a delicadamente. 
    Com os olhos fechados, ela parecia no perceber as intenes que regiam aquele ato. Seus braos envolviam Callaghan, tentando atra-lo de novo para si. 
    Aos poucos, com firme delicadeza, ele foi se desprendendo, at que Tess abriu os olhos e perguntou, confusa: 
     Por qu? 
    H dias em que estamos mais frgeis do que o costume. Hoje, eu no saberia parar 
     E se eu quisesse exatamente isso? 
    Ele sorriu e acariciou-lhe os cabelos, lentamente, antes de responder: 
     Este  o problema. Ns dois estamos alm do controle. 
     Se pensa assim, ento  melhor que eu me v... 
     Para onde?  ele perguntou, espantado. 
     Para meu quarto,  claro. 
     Tem razo. E melhor assim. Boa noite, Tess. Obrigado pelos merengues. 
    Ela no respondeu. Controlando a decepo e a vontade de chorar, saiu do escritrio arrasada. E foi somente quando estava entre as paredes seguras de seu quarto, que deu vazo  mgoa que a corroia por dentro. Chorou, at adormecer. 
    Uma semana se passou sem que Tess e Callaghan tivessem oportunidade de se encontrar a ss. Reynard voltou de Tulsa cheio de novidades. Fizera um bom negcio na compra de umas terras. E trouxe uma garrafa de vinho chileno para comemorar o fato. 
O dia do exame no Colgio lsnard chegou. Sem dizer nada a ningum, Tess partiu para a cidade, como se fosse s compras, e voltou sem fazer comentrios. Agora,  restava aguardar o resultado... 
    Tess controlava a tenso gerada pela expectativa fazendo longos passeios a p, pelas trilhas que levavam ao rio, nas tardes belssimas daquele incio de Outono. A desesperana  resultada de seu complicado caso de amor com Callaghan havia feito mudar seu comportamento. Ela, que sempre era naturalmente alegre e extrovertida, agora trazia nos olhos um toque de melancolia. O sorriso no desaparecera de rosto, mas tornava-se cada vez mais raro, 
    A sra. Lewis, do alto de sua experincia, tentou comentar aquela mudana sutil de comportamento, numa evidente tentativa de ajudar. Tess, porm, repeliu-a com firme delicadeza, fazendo-a entender que o momento que agora atravessava no podia ser compartilhado com ningum. A velha senhora calou-se, compreensiva, mas seus olhos irradiavam simpatia e incentivo. E Tess a agradecia, silenciosamente por essa demonstrao de solidariedade. 
    O resultado do exame chegou pelo correio, certa manh em que Callaghan apareceu para o caf, num terno cinza impecvel. Sua reduzida bagagem se encontrava na sala sobre a poltrona. Estava de viagem a Dallas para uma
srie de encontros com polticos. Esse contato seria de importncia vital para os negcios da famlia. Leopold e Reynard estavam  mesa, saboreando o desjejum, e o saudara com efuso, desejando-lhe uma tima viagem. 
     Callaghan agradeceu, mas, no fundo, no estava se importando muito com os negcios que teria  tratar. S conseguia pensar em Tess... 
    Como aquela pequena feiticeira conseguira causar tamanha revoluo? Ele pensava, sorvendo o caf. O fato era que ela infiltrara-se no recanto mais secreto de seu ser, melhor, em seu corao... Que ele h anos mantinha a salvo das outras pessoas, para no voltar a sofrer. 
    Era Irnico, ele refletiu perplexo. Sua situao emocional  o fazia lembrar-se da construo da muralha da China, que levara sculos para ser erguida, com a finalidade de defender o imprio chins contra os inimigos externos. Mas a dinastia que realizara uma das maiores obras da humanidade fora destruda por revolues internas... E no pelos inimigos estrangeiros, mantidos distantes pela muralha. 
     Ei, Callaghan...  A voz de Reynard interrompeu-lhe as divagaes.  Estamos falando com voc. 
     O que disse?  ele indagou, com voz distante. 
     Voc estava no mundo da lua? 
     Na China, para ser mais exato. 
     Pois bem., que tal voltar para c? Eu e Leopold estvamos dizendo que a Associao dos Produtores... 
    Callaghan sequer chegou a ouvir o final da frase. Pela porta da cozinha, observava Tess, no corredor. Ela estava justamente abrindo um grande envelope pardo. Lentamente, extraiu de seu interior uma folha impressa. No se sabendo observada, desdobrou o papel lentamente, com os olhos fechados, numa ansiosa expectativa. Ento abriu os olhos e um sorriso inundou-lhe o belo rosto. Tess ento descreveu um giro gracioso, como uma criana que tivesse acabado de ganhar um presente longamente esperado. 
    Erguendo-se, sem se Importar com a conversa dos irmos, Callaghan saiu ao encontro de Tesa. 
     Posso compartilhar de sua alegria?  perguntou, entre curioso e sorridente.  
   Ela voltou-se, corando de maneira encantadora. Lgrimas de pura emoo brilhavam em seus olhos verdes, tornando-os mais belos que nunca. 
     Fui aprovada, Callaghan! Passei no Colgio Isnard! 
     Eu nem sabia que voc j tinha prestado o exame  ele comentou, um tanto ressentido.  Por que no me contou? 
Ignorando a censura inequvoca, na voz de Callaghan, ela o abraou, eufrica, e correu para a cozinha. 
     Leopold, Reynard, ouam a boa nova!  anunciou, radiante.  Deste momento em diante, Tess Brady  aluna do Colgio Isnard de Jacobsville. -- 
    Ambos se levantaram, para abra-la. Aquela movimentao fora do comum atraiu a sra. Lewis, que logo ficou sabendo da notcia e deixou-se contagiar pela alegria que dominava todos. 
     Sempre soube que voc seria aceita no curso, Tess  disse Leopold, abraando-a calorosamente.  Voc  inteligente e dedicada. 
     Ela merece! Ela merece!  Reynard aplaudia, brincalho. 
    Ei, Callaghan  chamou Leopold.  Venha participar da festa. 
    Encostado ao batente da porta, em seu terno cinza impecvel, ele parecia alheio  alegria geral. 
    -  Quando comeam as aulas? perguntou, por fim.      
     - Dentro de duas semanas  Tess respondeu. 
    - Estarei aqui. antes disso. 
    - Quanto tempo voc pretende ficar fora? 
     Cinco ou seis dias, no mximo  Callaghan despediu-se dos irmos e da sra Lewis-  At a volta, pessoaL Cuidem-se bem 
    Tess o seguiu at a varanda A intuio lhe dizia que algo diferente se passava no interior daquele homem enigmtico. No tratava apenas do distanciamento que ele sempre colocava entre ambos, quando se sentia aborrecido ou ameaado em sua solido de solteiro convicto. Era algo mais srio, quase triste, que ela no sabia como interpretar.. 
     Colocando suavemente a mo no brao de Callaghan, Tess o deteve no movimento de descer os poucos degraus que o separavam do gramado em frente a casa. 
    Voc no vai me dizer nada? 
    O que esperava que eu lhe dissesse,alm de... at breve?     - Que vai sentir saudade, por exemplo. 
    E preciso dizer obvio? 
     Ajudaria bastante, em sua ausncia  ela afirmou ressentida. 
    - Est bem. Vou sentir saudade, Tess Brady. 
   - E o que mais? 
    Vou pensar em voc quando no estiver aturdido pela correria dos negcios. Est satisfeita, agora? 
    Ela sorriu, sem responder. Num gesto espontneo acariciou-lhe o rosto bem escanhoado, enquanto o fitava no fundo dos olhos. Depois, dando-lhe as costas, correu para dentro da casa. 
    Callaghan suspirou profundamente, enquanto tentava acalmar as batidas descompassadas do corao, causadas por aquela carcia breve e tocante. Pensativo, caminhou em direo ao carro. Pouco depois, partia rumo ao pequeno aeroporto de Jacobsville, onde um txi areo o aguardava. Ia inquieto, analisando seu comportamento com relao a Tess. Pela primeira vez, partia para uma viagem de negcios sem a menor vontade... E isso era espantoso. Ele, que sempre fora to consciente de seus deveres como lder da famlia Hart... 
     Mas, afinal, o que est acontecendo comigo?  perguntou-se, em voz alta, apertando com fora o volante  Por que esses pensamentos sombrios, essa vontade de voltar  fazenda e mandar as obrigaes ao inferno? 
    Callaghan sorriu, enquanto em sua mente estampava a imagem esguia e sensual de Tess, acariciando-lhe o rosto, os olhos verdes fitando-o numa interrogao que ia muito alm das palavras. 
    No havia como negar, ele concluiu. Tinha de reconhecer a verdadeira importncia daquela mulher em sua vida. Desejava-a como nunca, mas isto ainda no era o fator mais alarmante. Se seu sentimento por Tess fosse apenas atrao fsica,.. ele saberia domin-lo. 
    O problema era que queria proteg-la, am-la, t-la s para si, mant-la longe do Colgio Isnard, onde com certeza havia muitos jovens atraentes... Queria dormir, abraado com Tess, depois de fazer amor at a exausto... Acordar pela manh e v-la a seu lado, entre lenis amassados e nuvens de sonhos. 
     Acho que estou apaixonado  murmurou, num sobressalto de alma.  Minha nossa! Estou amando Tess Brady!  


    Na Fazenda Hart, Leopold e Reynard j haviam partido para o trabalho. Por isso no viram a imponente limusine branca que estacionou em frente  casa. O motorista abriu a porta para o passageiro, que desceu e olhou ao redor. Era um senhor muito elegante, de idade avanada, com cabelos longos e alvos como algodo. Subiu os degraus da varanda, levando uma pasta. Tocou a campainha e aguardou que o atendessem. 
     A srta. Theresa Brady mora aqui? 
    Tess levou alguns segundos para responder, surpresa por 
ouvir seu nome de batismo completo depois de tantos anos. 
     Sim, sou eu mesma. Em que posso servi-lo? 
     Meu nome  Arthur Shoer, do Escritrio Internacional de Advocacia Shoer. Preciso lhe falar. sobre um assunto de  seu interesse. 
    - No quer entrar, sr. Shoer?  Tess olhava para o visitante com a curiosidade. 
     Aceito, obrigado. Est bastante quente aqui fora. 
     Por favor.  Ela deu-lhe passagem. Conduziu-o at 
sala e indicou-lhe uma poltrona. 
    Agradecendo com um gesto de cabea, Arthur Shoer acomodou-se, colocando a pasta sobre uma mesinha de centro. 
     Posso lhe servir algo?  Tess ofereceu.  Um refresco, talvez? 
     Agradeo, mas prefiro um copo de gua. 
     Certo. Com licena, senhor. Vou providenciar. 
    Tess foi at a cozinha e retornou logo depois, trazendo um copo de cristal, com gua, sobre um pratinho de porcelana. Entregou-o ao ar. Shoer e sentou-se no sof. 
    Ele sorveu a gua fresca, com evidente satisfao. Ento abordou o assunto que o trouxera at ali: 
     Sou advogado e represento os interesses de sua me, em nosso pas. E como ela morreu, h duas semanas, em Cingapura... 
    Tess empalideceu, diante da notcia. Imagens difusas da infncia vieram-lhe  mente, numa velocidade alucinante, e desapareceram como se sorvidas pela areia do tempo. 
     Vejo que a senhorita ainda no sabia do fato  disse o advogado.  Sinto muito. Por favor, aceite minhas condolncias. 
     Obrigada.  Tess suspirou fundo e se recomps. - No tenho notcias de Amanda desde a infncia. Para mim  como se, na realidade, ela nunca houvesse existido. 
     Compreendo. Em duas ocasies ela se referiu ao fato de t-la deixado, quando criana, aos cuidados do pai. 
     Mas como Amanda foi parar em Cingapura? E do que morreu? 
     Sua me casou-se com um poderoso investidor de l, que a conheceu em Dallas, numa viagem de negcios. Ao que me consta, ambos viveram felizes, desfrutando de muito luxo e conforto, at seis anos atrs, quando ele morreu deixando-a muito bem amparada. Parece que ela realmente o amava, pois nunca se recuperou do choque sofrido com sua morte. Ela, que-sempre participava das altas-rodas sociais de Cingapura, recolheu-se em sua manso. Parou de receber e de comparecer a festas e jantares. No mandava notcias nem mesmo para mim, que cuidava de seus negcios. Foi um choque, para todos que a estimavam, sab-la gravemente enferma. Ela morreu de insuficincias mltiplas, em casa cercada de todos os cuidados mdicos e o carinho de uns poucos amigos ntimos que estiveram a seu lado at o fim 
     - Gostaria de ter conhecido essa mulher a quem o senhor se refere. Para mim, Amanda  apenas um nome, um vulto,  uma ausncia.  
    No havia mgoa nas palavras de Tess, mas uma triste indiferena, pior talvez do que a dor. 
    O velho advogado meneou a cabea, com uma expresso compreensiva. 
    - No sei que importncia ter essa informao para a senhorita, mas queria que soubesse que sua me planejava  mandar busc-la. Ela chegou a ligar para o meu escritrio   pedindo-me para entrar em contato com voc e conversar 
sobre essa possibilidade.  
     Nunca recebi nenhum comunicado sobre isso. 
    - Acontece que naquela ocasio o marido de Amanda veio a falecer, inesperadamente. Todas as providncias foram suspensas e depois, ela no mais falou sobre o assunto 
    - A importncia que eu tinha, na vida dela, foi sempre muito relativa  Tess comentou, com amarga ironia.  
     As aparncias enganam, senhorita. A vida tem sua dinmica prpria e nem sempre os atos refletem, com exatido, o desejo ntimo das pessoas.  
     Concordo. Mas isso no muda os fatos. Fui criada sem  me e no vou fingir uma emoo que estou longe de sentir.  A morte de Amanda  um fato triste, sem dvida. Mas, ao  que me diz respeito, sentiria muito mais se isso acontecesse   sra. Lewis, que  a outra empregada desta casa, a quem  dedico  sincera amizade. 
     H uma lgica, nisso  Arthur Shoer concordou, com gravidade.  H um provrbio italiano que diz: longe dos olhos, longe do corao. Acontece que sua me nunca a esqueceu, mesmo depois de tanto tempo.  Inclinando-se, ele abriu a pasta que estava sobre a mesa de centro e dela extraiu uns papis, que ordenou cuidadosamente, antes de prosseguir:  Segundo a vontade de Amanda, a senhorita  a herdeira universal de todos seus bens, o que inclui uma extensa lista de livros, quadros, jias... 
    Tess levantou-se, com impacincia, meneando a cabea numa negativa veemente. 
     No quero nada que tenha pertencido a minha me. No existe ningum, em Cingapura, que gostaria de ficar com esses bens? 
    O espanto fez com que o velho advogado titubeasse, antes de responder: 
     Sim. Existe. A filha do primeiro casamento de seu padrasto era muito amiga de sua me. Por certo, ela ficaria feliz em receber seus objetos pessoais. 
     timo. Ento, est resolvido. Com certeza tudo isso significaro muito mais para ela, do que para mim. 
     Se for este seu desejo expresso, no me resta outra alternativa seno acat-lo. Mas a senhorita tem idia do quanto valem os quadros, jias  livros que Amanda lhe deixou? 
     No. E tampouco quero saber. Assinarei um documento legalizando essa transferncia e, assim, encerraremos o assunto. 
    O advogado suspirou, enquanto fazia um gesto de assentimento. Retirou do bolso do palet um leno, com o qual enxugou a testa. Em seguida, voltou a falar. 
     Alm dos objetos pessoais, sua me deixou, em seu nome, um respeitvel nmero de aes, de grandes grupos empresariais de Cingapura. 
    O advogado rabiscou umas cifras num papel e, depois de fazer alguns clculos, disse num tom cauteloso: 
     Compreenda que no se trata de um nmero exato. E apenas estimativa. 
     Certo. 
     Eu diria que as aes que agora lhe pertencem. tm um valor de mercado em torno de um milho de dlares. 
     Como?  Tess indagou, boquiaberta. 
     Isso mesmo que a senhorita ouviu. A cifra  de um milho de dlares... Talvez at um pouquinho mais: 

     Parece que o senhor no est entendendo minha posio  disse Tess.  No quero nada que venha de Amanda. Ser que fui clara? 
    Arthur Shoer j no a fitava com espanto, mas com total perplexidade. De sbito, assumiu um tom autoritrio: 
     Pelo que me consta, a senhorita  empregada nesta casa. Posso aceitar que no tenha ambies de ordem material... Mas ser que no existe nenhum sonho que queira realizar? 
Tess deteve-se em meio  indignao, para refletir. Viver  como agregada da famlia Hart era uma situao que a  incomodava. No por orgulho, mas por falta de opo. Como ficaria, por exemplo, sua relao com Callaghan, se ela fosse independente, Se ele no tivesse que pensar em proteg-la 
e cuidar de seu futuro? . 
     Pense bem, srta. Brady  o advogado insistiu.  O que est em jogo  bem mais importante do que pode julgar, com sua pouca idade. Aceite as aes que sua me lhe deixou como herana. Desfrute uma vida mais confortvel e segura, por algum tempo. Se depois continuar achando que no precisa delas... Bem, existem muitos rgos de assistncia social que ficaram felizes em aceitar doaes. 
     Creio que o senhor tem razo  Tess admitiu, aps refletir por um longo momento.  A famlia Hart, para quem trabalho,.me abrigou aps a morte de meu pai, porque eu simplesmente no tinha para onde ir. Fao por merecer cada centavo que recebo nesta casa. Mas, como o senhor pode ver, no tenho minha independncia. Vou aceitar as aes.  
    - Enfim o bom senso falou mais alto Arthur Shoer suspirou, aliviado. - Terei de preparar os papis relativos  doao dos objetos particulares de sua me. Afinal, eu no esperava por isso. Mas os outros documentos j esto prontos. Basta que a senhorita os assine. 
    Tomando a caneta que o advogado lhe estendia, Tess colocou seu nome nos locais indicados e ento perguntou: 
    Quanto valiam as aes que recebi de Amanda? 
    -  um pouco difcil calcular o nmero exato, devido s variaes da bolsa... 
     Aproximadamente  ela sugeriu. 
    O sol descia por trs do grande celeiro da Fazenda Hart, projetando uma sombra longa e delgada sobre a pastagem verde-esmeralda. Encostada ao tronco de uma rvore, Tess olhava o mundo sob nova perspectiva. Era uma mulher livre para fazer o que bem entendesse. Qualquer sonho que acalentasse, agora, trazia em si a possibilidade de ser realizado. Uma sensao de angstia brotou dentro dela, como se tivesse que decidir seu destino em poucos minutos e no soubesse como faz-lo. 
    Calma, ela se ordenou, com firmeza. Nada mudou, ainda. Um pensamento curioso atravessou-lhe a mente. Talvez a visita do advogado de Amanda fosse apenas um sonho. Ela iria acordar dentro de alguns momentos e trabalhar no escritrio dos Hart, como sempre... Ou ento, preparar o caf da manh no dia de folga da sra. Lewis... 
    O canto de um pssaro na copa da rvore provou-lhe que no, que tudo aquilo estava acontecendo de verdade. 
Voltando-se na direo do poente, ela contemplou o sol que declinava no horizonte. 
     Estou to acordada quanto aquele pssaro  constatou, em voz alta.  Tornei-me rica de um momento para o outro e sinto-me muito assustada. 
    Uma voz masculina e amiga, vinda do passado, pareceu sussurrar em seus ouvidos: 
     Filha, quando no souber que deciso tomar diante de uma situao difcil, procure descobrir primeiro o que voc no quer, de modo algum. Depois  s escolher, entre as outras, a atitude que lhe parecer a mais correta. 
     Mesmo assim, eu posso me enganar... 
     Confie em seu corao. Ele nunca se engana. 
    Tess sorriu, emocionada, ao lembrar-se do pai tentando ajud-la a  se decidir sobre algo, no passado. Algo que ela nem mais recordava. 
    Enquanto o sol descia na linha do horizonte, e a brisa tornava-se mais fria, uma calma inesperada veio preencher o vazio de Tess. Um vazio resultante de seu medo do desconhecido. Sentindo-se forte o suficiente para posicionar-se dentro da nova realidade de sua vida, ela voltou lentamente para a sede da fazenda. 
    Quando Leopold e Reynard chegaram  cozinha para jantar, banhados e vestidos em roupas confortveis, Tess anunciou, com naturalidade: - 
     Logo depois que vocs saram para o trabalho, hoje cedo, um advogado chegou  fazenda. 
    Por que no mandou nos chamar?  Reynard perguntou, servindo-se de maionese. 
     O que ele queria?  Leopold falou quase ao mesmo tempo. 
     No mandei cham-los porque ele procurava por mim. Apresentou-se como Arthur Shoer, representante dos interesses de minha me nos Estados Unidos. Ela faleceu h duas semanas, em Cingapura. 
    Surpresos, os Hart prestaram-lhe suas condolncias. Mas Tess os interrompeu: 
    Agradeo,a solidariedade de vocs. Mas, na verdade, Amanda era pouco mais que uma total desconhecida, para mim. 
     Sabemos o que isso significa, Tess.- disse Leopold, num tom grave.  Afinal, tambm fomos abandonados por nossa me. 
    O silncio caiu entre os trs, quebrado apenas pelo rudo de um ou outro talher, que tocava os pratos de porcelana. Por fim, Tess retomou o assunto: 
    - O mais surpreendente, nisso tudo,  que Amanda deixou-me aes de algumas empresas de Cingapura, num valor aproximado de um milho de dlares. Resolvi aceitar a herana e j assinei os papis necessrios. 
      muito dinheiro!  Leopold exclamou, surpreso.  O que pretende fazer, Tess? 
     Ainda no sei. Mas com certeza no desistirei do curso no Colgio Isnard. Afinal, sempre sonhei em voltar a estudar. 
    Ambos assentiram, em silncio. E ento Leopold disse: 
     Creio que em seus planos no est includa a possibilidade de continuar trabalhando conosco... 
    - Acho que voc ter que procurar uma nova secretria  ela disse, com ternura 
     Adeus aos biscoitos de nata, aos almoos deliciosos de domingo e, sobretudo,  alegria que voc sempre trouxe a nossa casa...  Reynard manifestava, desse modo, seu desagrado diante da perspectiva da partida de Tess. 
     Voc vai fazer falta nesta casa  Leopold sentenciou. 
     E no estou falando apenas de trabalho. 
     Eu sei. Tambm sentirei saudade.  Ela fez uma pausa como se temesse dizer mais do que devia. Mas depois prosseguiu, corajosamente  Entrei aqui a servio de vocs, numa circunstncia fora do comum. A morte de meu pai praticamente os obrigou a me acolherem. 
     No nego que a princpio, foi assim  Leopold admitiu. 
 Mas com o passar do tempo voc se tornou parte de nossa famlia  Controlando a emoo, perguntou: . Quando pretende partir? 
     Assim que vocs acharem algum para me substituir. No tenho pressa. 
     Gostaria que Callaghan estivesse aqui  Reynard afirmou.  Ele teria algo a dizer, sobre o assunto. 
    Tess estava  beira das lgrimas. Para evit-las, forjou um sorriso e encerrou o assunto: 
      Bem, deixem-me servir os bifes de caarola, antes que esfriem. 
    Quando Callaghan retornou da viagem a Dallas, encontrou tais na sala, cuidando  de um vaso de violetas. Ela lhe pareceu diferente... Mais madura. Mas, uma certa tristeza habitava aqueles olhos verdes, isso era evidente. 
     Ol  ele saudou-a, com um sorriso.  Que bom v-la de novo. 
    Tess voltou-se rapidamente e teve de fazer um imenso esforo para dominar a vontade de correr at ele, abra-lo e beij-lo. Por fim sorriu e respondeu: 
     Seja bem-vindo ao lar, Callaghan. Quer que o ajude com sua bagagem? 
     No, obrigado. Onde esto todos? 
     Reynard saiu cedo e s voltar para o jantar. Leopold est no escritrio. A sra. Lewis foi at a cidade. 
     Bem... Como esto as coisas, por aqui? Alguma novidade? 
    - Diversas. Mas voc deve estar ansioso para tomar um banho e relaxar. 
     De fato, sinto-me exausto. Por favor, avise Leopold de minha chegada.  A caminho do quarto, Callaghan declarou, num tom casual.  Senti saudade, Tess. 
     Eu tambm. ela afirmou, vendo-o desaparecer no final do corredor. 
    No chuveiro, sob o forte jato da ducha morna, Callaghan ouviu algum bater  porta de seu quarto. 
    - Entre, Leopold  ordenou, elevando a voz.  Estou quase saindo do banho. Deixei uns documentos, sobre a cama que vo interess-lo. D uma olhada neles, enquanto me espera. 
Pouco depois, Callaghan saia do banheiro, envolto numa grande toalha azul, friccionando os cabelos midos com outra menor e da mesma cor. 
     Acho que fiz um bom negcio  disse, ao ver o irmo estudando os papis. 
    - Como sempre, voc agiu de maneira brilhante  Leopold o fitou, sinceramente impressionado  Parabns, mano. 
    E por aqui, como vo as coisas? 
    - Tudo igual, com os velhos problemas de sempre. Mas h uma grande novidade.
     Conte-me. 
    -Tess acaba de receber urna herana, por sinal bastante significativa. 
     De quem? 
      Da me, que morreu em Cingapura h pouco mais de duas semanas. 
     O que voc chama de... significativa?  Callaghan indagou, curioso. 
     Um milho de dlares, em aes. 
    Ante o olhar de expectativa de Leopold, ele caminhou at a janela e debruou-se no parapeito. Contemplou longamente as pastagens e os campos cultivados que se estendiam at o horizonte. Por fim, perguntou, num tom calmo: 
     E Tess lhe disse o que pretende fazer, agora que sua situao mudou radicalmente? 
     Pelo que entendi, ela continua firme em seu projeto de estudar. Vai cursar Botnica, no Colgio Isnard. Mas pretende deixar nossa casa. 
     Era de se esperar  Callaghan murmurou. Fechou os olhos e fez um esforo sobre-humano para no demonstrar o quanto aquela notcia o perturbava. E demonstrando um controle excepcional, mudou de assunto.  Voc conseguiu comprar aquele touro Salers, que tanto desejava? 
     Sim.  Leopold sorriu.  Afinal, tambm sou bom de negcios... No tanto quanto voc, naturalmente. 
    Ignorando o elogio, Callaghan perguntou: 
     E j o trouxe para a fazenda? 
     Lgico. 
     E como est ele? 
     Levando uma vida de prncipe. 
     Gostaria de v-lo. 
     Agora? 
     Por que no? 
      Ento, vamos. 
    Pouco depois, os dois irmos deixavam a sede da fazenda e seguiam para os currais, sob o olhar ansioso de Tess, que estava no quintal dos fundos da casa. Preocupava-se com a reao de Callaghan, sobre sua deciso de partir. No que esperasse mago-lo, com essa atitude. Afinal, quando ela anunciara, no inverno, que ia partir, ele lhe sugerira apenas que ficasse at a primavera.  Era verdade que, depois, propusera-lhe continuar at o vero... E j era outono.  Mas Callaghan nunca lhe pedira para ficar, definitivamente... E ela teria se sentido to feliz, se ele assim o fizesse! 
    No..., Tess pensou, com o corao carregado de tristeza. Callaghan no se importaria tanto assim, comigo.  at capaz de sentir-se aliviado, com minha partida: Para ele, serei talvez um problema a menos. 
    Jovem e inexperiente em assuntos de amor, Tess jamais poderia compreender os conflitos de Callaghan. Sabia da atrao que exercia sobre ele, que alis fazia intensos esforos para se controlar, para no transform-la em sua amante.     Julgava que callaghan agisse assim por uma questo moral e, at a, estava certa. Mas, ento, por que ele no a pedia em casamento? Ela se perguntara, muitas vezes. E a nica resposta que lhe ocorria era a mais bvia: ele simplesmente no a amava. Essa constatao a deixava arrasada. 
    Entretanto, no servia para faz-la desistir de Callaghan.. No em seu corao, do qual ele j tomara posse, 
definitivamente.. 
    O fato era que ela no podia mais continuar naquela situao, amando sem esperana de ser correspondida, pulsando de desejo a cada momento que via Callaghan.. O que fazer, se no partir? 
    A herana que Amanda lhe deixara aparecera num momento oportuno. Agora, ela podia dar um novo rumo a sua  vida, dali por diante. 
    Preferia mil vezes tornar-se amante de Callaghan, do que perd-lo para sempre. Mas  escolha no era sua. Com esse triste pensamento povoando-lhe a mente, Tese foi para o quarto arrumar as malas. Dentro de dois dias, a nova secretria contratada por Leopold chegaria  fazenda. 
    E j no serei mais necessria, aqui, Tess pensou, com  um profundo suspiro. 
    A noite caa, quando Callaghan  e Leopold voltaram para casa. 
    Leopold mostrava-se animado e falava bastante. Callaghan, ao contrrio, mantinha-se srio, respondendo s perguntas do irmo de maneira atenciosa, mas distante
    Para surpresa de ambos, Tess os aguardava na varanda da frente. Usava um de seus vestidos novos, cor de areia, e parecia inquieta. Leopold percebeu imediatamente do que se tratava: haveria ali uma conversa na qual no estaria includo. Assim, entrou em casa, deixando Callaghan e Tess a ss. 
     Preciso falar com voc = ela principiou, nervosa. 
     Agora?. No poderia ser depois do jantar? 
     Infelizmente, no. 
     Est bem.  Ele acomodou-se numa cadeira, fitando-a com ateno.  Do que se trata? 
     Voc j deve estar sabendo que recebi uma herana de minha me. 
      o assunto que mais se comenta na fazenda.  E Callaghan tentou gracejar, para aliviar a tenso.  At os bezerros j sabem. 
     Era de se esperar  disse Tess, ignorando o comentrio.  Um fato desse tipo no acontece todos os dias. 
     Sinto muito pela morte de sua me. 
     Obrigada  ela agradeceu, com simplicidade.  Pensei muito no que fazer de minha vida, agora que tenho uma grande soma em aes. E resolvi morar em Jacobsville. As aulas comearo em breve e, assim, eu poderei me dedicar com afinco, aos estudos. 
     Isso  uma forma delicada de dizer que vai nos deixar. 
     Sim  ela confirmou engolindo em seco.  A nova secretria que Leopold contratou vir trabalhar depois de amanh. E uma sobrinha da sra. Lewis a substituir, em seus dias de folga. 
     Quando pretende partir, Tess?  A voz de Callaghan soava tensa e grave. 
     Daqui a pouco. Ted vai me levar at a cidade. 
    Callaghan ergueu-se, enquanto suspirava profundamente. 
     Se  isso que voc quer, no tenho objees a fazer. 
     No  o que quero.  o que devo fazer. 
     Voc tem todo o direito de agir segundo seus desejos e critrios, Mas quero que saiba que esta casa estar sempre aberta para receb-la. 
     Obrigada. Nunca me esquecerei do quanto vocs foram bons para mim. 
     Mesmo atirando bolo de aniversrio nas paredes?  Callaghan sorria, em meio  tristeza.. 
     Foi s um bolo...  Ela sorria de volta.  Nada assim to importante. 
    Ambos se olharam por um longo momento, como se dissessem assim o que nenhuma palavra poderia traduzir. Por fim, Callaghan indagou: - 
     Voc j se despediu de Reynard? 
     Sim. Ele acabou de chegar e at ajudou-me com a bagagem. 
     Certo.. Ento, direi a Leopold para vir se despedir de voc. Adeus,, Tess. Cuide-se com muito carinho. 
     Voc tambm... 
    Pouco depois, Ted, o capataz, estacionava seu jipe em frente  varanda. 
     Podemos ir, Tess?  
     Sim, Ted ela respondeu, erguendo na mo uma pequena valise. Leopold, que estava a seu lado, encarregou-se de uma das malas. A outra ficou por conta de Ted, que depois de ajeitar a bagagem, sentou-se ao volante. 
    Tess entrou no jipe e acomodou-se no banco. Leopold debruou-se na janela e sorriu, embora estivesse evidentemente emocionado. 
     V em frente, Tess. - disse, num tom encorajador.  Com sua fora de carter, juventude e todo o dinheiro que agora tem... Nada poder det-la. 
    Ela esforou-se para sorrir de volta, mas nada respondeu. Sabia que qualquer palavra que brotasse em seus lbios traria junto uma torrente incontrolvel de lgrimas 
     At mais, Leopold  disse Ted, acionando o motor. 
     At... 
    O jipe partiu, com os faris rasgando a escurido da noite. 
    Nos primeiros dias em Jacobsville, Tess ocupou um quarto num pensionato para estudantes a trs quarteires do Colgio Isnard. 
    Entrando em contato com Arthur Shoer, agora seu advogado, ela ordenou que uma conta fosse aberta em seu nome, em um dos bancos locais. Logo, estava livre para movimentar-se  vontade.
    Em menos de quinze dias comeou a acostumar-se com a nova realidade. Comprou um belo carro e alugou uma casa confortvel, espaosa, mobiliando-a segundo seu prprio gosto. 
    Dona de uma simpatia natural, que refletia a bondade de seu corao e de uma beleza sem artifcios, em pouco tempo Tess se tornou bastante popular entre os estudantes. Sua casa. era bastante freqentada, embora ela no abrisse mo de seus momentos de solido, que tanto prezava. 
    A sra. Lewis lhe telefonava com freqncia, dando notcias dos Hart. Por duas vezes viera visit-la, trazendo bolos, frutas e ovos frescos. 
    No raras vezes, Tess caa em profunda tristeza, em recordaes dolorosas que a deixavam bastante abatida. Aprendera, ento, a combater esses momentos, mergulhando nos estudos com toda a energia de que dispunha. Nunca mais vira Callaghan e no procurara fazer contato. No via sentido em agir de outro modo. 
    Mais de trs meses haviam se passado, desde que ocupara a nova casa, quando Tess resolveu dar uma festa para alguns colegas de escola. 
    O evento foi marcado para sbado  noite. Um grande nmero de jovens compareceu. E a festa transcorreu num clima alegre e descontrado. 
    No final da noite, quando os ltimos convidados partiram, Tess sentia-se exausta, mas satisfeita. No houvera uma s briga ou discusso sria. Seus novos amigos haviam se comportado  altura das expectativas. Assim, ela voltou a promover novas festas, com certa freqncia. E foi numa delas que conheceu Gabriel, um jovem professor, que caiu em seu agrado pelo riso fcil, arguta inteligncia e um comportamento social impecvel. Tornaram-se amigos e no era difcil v-los juntos em cinemas e eventos culturais promovidos pelo colgio 
    Por duas vezes, quando em companhia de Gabriel, Tess pensara ter visto Callaghan. A primeira, ao sair de um cinema, de brao dado com seu parceiro, rindo de um comentrio engraado que ele fizera. Parado na esquina, um homem de estatura elevada, de cabelos negros, vestindo um terno cinza, olhara em sua direo e depois dobrara  esquina, desaparecendo de vista. A semelhana era tanta que ela se detivera bruscamente, empalidecendo. Diante das perguntas insistentes do jovem professor, alegou um mal-estar passageiro e pediu que a levasse para casa, dando a noite por encerrada. 
    A segunda vez ocorrera em frente ao colgio, em plena luz do dia. Ela estava conversando com Gabriel, quando seu olhar foi atrado por um passageiro no banco de trs de um txi, estacionado a poucos metros de distncia. Tess chegou a dar alguns passos naquela direo e ento o txi arrancou, deixando-a perplexa e cheia de dvidas.. 
    O tempo transcorria, com Tess envolvida nos estudos e em suas novas amizades. Num fim de semana, alguns amigos resolveram aparecer em sua casa, levando cada qual um prato ou uma bebida. 
    A festa comeou assim, sem nenhuma premeditao. E o relgio da sala marcava quinze para as quatro da manh, quando todos se foram. Todos, menos Gabriel, que ficou para ajudar Tess a dar uma ordem na sala. A certa altura, ambos se abaixaram para recolher uma almofada... E suas mos se encontraram. Com um sorriso, ela ergueu o rosto e ento Gabriel tocou-lhe os lbios com os seus.. Era um beijo terno, tmido, nada desagradvel Mas mesmo assim Tess fez questo de dizer: 
     No, Gabriel. E melhor no confundirmos as coisas. O silncio caiu no ambiente, como urna cortina densa e 
pesada. Por fim Gabriel o quebrou, com uma pergunta que soava mais como uma afirmao: 
    - Essa sua negativa tem a ver com o misterioso personagem que vimos, ao sair do cinema... O mesmo que estava no txi, outro dia, no  mesmo? 
     Ento voc percebeu? 
     Os apaixonados tm um stimo sentido. 
    Uma lufada de vento atravessou a varanda s escuras e entrou na sala atravs da  porta aberta, acariciando o rosto repentinamente corado de Tess. 
    - Voc no deve falar assim comigo, Gabriel ela protestou, suavemente.  Afinal, somos amigos. 
     H um misterio, em sua vida  ele constatou, com tristeza.  Algo que a impede de abrir seu corao para um relacionamento mais profundo...  isso? 
    Tess confirmou com um gesto de cabea. De sbito, Gabriel indagou: 
     Ele  casado? 
     No  Ela sorriu, com amargura. 
     Ento,. no entendo. Pelo que parece, voc ama esse homem. O que h com ele, afinal?  louco... Ou talvez procurado pela Justia? 
     Muito mais simples, querido  Tesa afirmou, com voz trmula.  Ele no me ama. 
     Ento, no a conhece bem. 
    - Muito mais do que voc imagina. 
     No faz sentido. Ento, por que ele a seguiria? 
     Por um sentido de proteo. Acho que, de algum modo, sente-se responsvel por mim. 
    - Por qu? 
    - Esta  uma histria longa, que no vem ao caso. Alm do mais, no sei se era mesmo ele quem estava na esquina do cinema, ou no txi. 
     Voc gostaria que fosse, no  mesmo?
    Tess levou alguns instantes para responder. 
     As vezes, Gabriel, a falta que sinto dele  tanta, que me contentaria at com essa migalha de ateno...  E comeou a chorar mansamente, o queixo pendido sobre o peito, os braos soltos ao lado do corpo, num abandono absoluto, sem defesas. 
     Tess...  Gabriel abraou-a, apertando-a contra o peito.  No chore assim. Ningum no mundo merece tanto sofrimento. Esquea-o. 
     No posso  ela declarou, por entre as lgrimas.   Eu o amo. 
     E vai passar o resto da vida sofrendo por algum que no lhe quer?
     Creio que, com o tempo, a dor vai se tornando mais suportvel A gente se acostuma. 
     No posso acreditar no que estou ouvindo  ele exclamou, indignado.  No dvemos nunca nos conformar  em sofrer. Temos, isso sim, de lutar para vencer os problemas que nos causam dor. 
     Gabriel... Posso lhe fazer um pedido? 
    Diga. 
     Deixe-me sozinha. Detesto cenas, principalmente as  minhas. 
    Voc tm certeza? 
    Sim...Porfavor. 
     Como voc quiser . ele cedeu, relutante.  Ns nos  veremos na escola, segunda-feira? 
     Claro. E obrigada por tudo. 
     Gabriel atravessou a sala, passou pela porta aberta e  encostou-a. Ao atravessar a varanda s escuras, nem reparou num vulto encostado na parede, prximo  janela. Depois  desceu os degraus e caminhou at o local onde deixara seu  carro estacionado. Partiu em seguida, rompendo o silncio  da madrugada.
    Callaghan apoiava-se na parede, tentando ordenar os pensamentos e as emoes. A confisso que tinha ouvido de Tess inundava-o de felicidade. Agora que ela j havia tido tempo de conhecer pessoas jovens e at interessantes, como o homem que acabara de sair, podia enfim optar... E ela o escolhera! Acabava de declarar isso quele homem, com uma sinceridade e uma pureza comoventes. 
    Ainda assim, Callaghan pensou, ela continua sendo muito jovem. E daqui a algum tempo poder se apaixonar por outro homem. 
    Com um meneio de cabea, Callaghan afastou essa terrvel perspectiva. Era preciso vencer aquele medo, para transpor os portais da felicidade, ele concluiu, tomando flego e batendo levemente  porta. 
    Certa de que se tratava de Gabriel, Tess foi atender, enxugando as lgrimas com um gesto nervoso. De passagem, pressionou um interruptor que acendia a luz da varanda. Ao deparar com Callaghan, perguntou-se se no estaria sonhando. 
     Voc!  disse, numa exclamao abafada.. Deu-lhe passagem, fechou a porta e ento indagou:  O que est fazendo... 
    Antes que ela conclusse a pergunta, Callaghan tomou-a nos braos e beijou-a longamente. 
    O mundo ao redor perdeu o significado. Tess entregou-se quele beijo com sofreguido, sem se questionar, sem a menor reserva. Afinal, no era isso que seu corao ordenava? E ela no aprendera, desde menina, a ouvir-lhe a voz e atend-lo? 
Quando por fim os lbios se separaram, Callaghan fitou-a com infinita ternura. 
     Voc deve estar se perguntando por que vim at aqui. Bem, eu a tenho seguido, como voc j percebeu. 
     Voc age assim porque voc se preocupa comigo, no  mesmo?  ela indagou, docemente. 
     No, Tess... Porque eu te amo. Acho que jamais amei ningum, como voc, S no lhe  disse isso antes porque julgava que voc precisasse de tempo para conhecer outros jovens, diferentes daqueles rapazes rudes de sua adolescncia... 
     Pois saiba que conheci rapazes muito bonitos e interessantes... S que nem por isso deixei de amar voc, Callaghan. 

     Eu sei.  Ele sorria, com a segurana que s   certeza de ser correspondido nos sentimentos poderia trazer.  Ouvi voc dizer isso quele homem que saiu agora h pouco. . 
    Tess arregalou os olhos, numa expresso de espanto. 
     Voc... estava nos escutando? 
     Sim. Na verdade, fiquei rodando em volta deste quarteiro durante horas. Vi seus amigos saindo um por um e, julgando que voc  estivesse sozinha, armei-me de coragem para v-la. S ento me dei conta da hora avanada. Mas no tive foras para ir embora. Da, decidi sentar-me na varanda, s para desfrutar um pouquinho a sensao de estar prximo de voc. De repente, ouvi-a conversando com algum. Com o corao. atormentado pelo cime, j estava disposto a ir embora, quando a escutei dizer que me amava. 
    -Grande novidade!  ela comentou, com os olhos brilhantes de paixo.  Nunca fiz segredo disso. S que voc que no queria.. . - 
     Eu tinha medo de declarar meu amor, medo de que voc, algum dia se apaixonasse por outra pessoa... 
     Mas eu s quero voc, querido ela o interrompeu, com a voz embargada pela emoo.  Minha vida no teria o menor sentido, ao lado de outro homem. O que terei de fazer, para que vc acredite nisso? 
     Dizer sim ao meu pedido de casamento. 
    Tess fitou-o, perplexa, enquanto uma certeza se insinuava em seu corao: aquele homem a amava de verdade! E nada, no mundo poderia ser mais maravilhoso... 
    Quero que se torne minha esposa, Tess  ele declarou. 
Quero construir uma vida a seu lado, realizar nossos sonhos, criar nossos filhos..., 
    - No h nada que, eu deseje mais, meu amor.  Tess atirou-se em seus braos. 
    Um novo beijo aconteceu, seguido por outros, cada vez. mais intensos. E houve um momento em que o desejo se tornou incontrolvel. Queria seu tributo, queria a consumao daquele sentimento na forma de um ato de amor. 
    Callaghan ergueu Tess nos braos e perguntou, baixinho 
       Onde? 
 Meu quarto fica no final do corredor...  ela respondeu, compreendendo que se aproximava o momento de se tornar mulher. 
    E para l ele a conduziu, sabendo que dessa vez no seria preciso sufocar a paixo que o incendiava. 
    Como se lhe adivinhasse os pensamentos, Tess murmurou: 
     Agora, nada impedir nossa felicidade. 
    O que Tess descobriu, depois, era que a felicidade ia muito alm dos sonhos romnticos que ela acalentava havia tanto tempo. Era algo mgico, indescritvel, que s mesmo o verdadeiro amor poderia trazer. 

Fim



Digitalizado por
Projeto_romances
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Digitalizado por Mrcia Gomes



